sábado, 3 de maio de 2008

Feche os olhos e confie em mim

   Não mais o frio, mas chove. Penso, repenso, tenho memória, tenho telefonemas e falas. Sinto a situação pendente; pego o maço de cigarros, puxo e acendo um. Trago com o máximo de força; Trago-o com o máximo de força para perto de mim. E sou vil. Sempre que posso sou vil; porquê com você é assim que tem de ser: vil.

   Chove forte, pedregulhos no teto todo meu, talvez. E você deve estar na rua, pedregulhos na tua cabeça, Amém. Penso nas piadas que ouço e não presto atenção e em todos os “nãos” que ouvi em 72 horas. Soa-me muito, muitos “nãos” em poucas horas. Mas o que se pode fazer? Pisam em meus castelos e nem estou na praia; faço confidências nuas enquanto estou vestida. Preciso conversar e no fundo tudo o que quero é um resgate, um fio de memória que vá se puxando e puxando e enfim: aí está, o meu novelo velho de lã cinza-esverdeada.

   Porém, apesar de tudo e apesar dos questionamentos, haverá um dia em que não me verás mais chorar em sua frente, – tão amargurada, tão humilhada, perguntando se jogas alguma coisa em minha cara – porque estaremos distantes: estarás cuspido (como me cuspis-te) ou morto (como me matas-te) ou então até distante, como propôs, com toda a ignorância e prepotência a ausência, infame.

   E quem me dará rosas? Logo eu que odeio rosas!
Quem me dará uma única rosa de latão com um gancho? E uma caixa, e um livro, e mais outro livro e a idéia de um curta-metragem e muitos, muitos cappuccinos italianos ou não? Ninguém me dará a amizade e o banco do passageiro, em que eu fico calada ouvindo, ou em que falo qualquer besteira e não sôo nada interessante.


   Haverá a morte, tão falada, tão anunciada, já que escolheste. E de todas as outras oportunidades, e de todas as outras qualidades e desqualificações e defeitos, foste ficar, e fincar logo nos meus defeitos, tão gloriosos que me sustentam, e sustentam-nos nos atos ilícitos, cometidos sem vergonha e sem medidas. E mais depois ainda, daqui a dez anos, eu o reconhecerei?
Acharei-lhe estranho como lhe achei à primeira vista? Será que eu vou engordar como algumas pessoas do seu passado engordaram? Ou será que quem engordará é você?

   Mas sou forte; suponho. Agüentarei as pontas, sempre agüentei. Alguns cospem, outros mastigam, mas eu engulo, sempre; mesmo que alguma – qualquer – lágrima escorra.

   Pouco tenho medo das tragédias. Pouco tenho medo dos desencontros e atrasos. O que não gosto mesmo é do descaso, do desnecessário, desrespeito-amargurado. E foste logo comigo, que ia com você aonde quer que fosse.


● A alguém decididamente (não por mim) especial

    – Lorota! Balela. Quero alguma coisa que marque. Mútuo, que não tenha prazo nem validade, nem empecilhos, muito menos vaidades. Não quero tempos, nem relógios. Nem tic-tacs, nem a quem chamar quando estiver, assim, como digo, mutuamente-marcada (o que é eterno). Vou até a montanha e enquanto dormes escrevo pois não tenho o que fazer, você não está aqui para eu dizer; e dizer o quê?
Tudo o que já disse antes, e voltar na mesma história de antes, seguindo a linha desde o começo, que parece interminável e o fim que parece não existir. E dizer que tem de ser assim, porquê vai ser assim e não é porquê quero, é porquê vai ser. E é estranho. Sou normal. Mas é estranho.

   Não, e não. Não mesmo. Você não quero que morra. Nem quero que me mate. Nem quero te cuspir e muito menos que me cuspa. Não quero a ausência batendo em nossas “portas” excêntricas com chaves e fechaduras invertidas, transmutadas.

   Porque senão, e senão...

   A quem comprarei coisas bonitas, em par? A quem direi o que vi, e fotografei, o que filmei para mostrar quando encontrar, e os filmes, e os livros, e os versos e as fotografias... e o amontoado de idéias que preciso, sempre precisei compartilhar. A quem vou pedir que me aceite com defeitos e qualidades, e a quem vou querer o impossível, o incrível das duas maneiras possíveis que penso, o mágico, o irrealizável que realizarei... a quem?

   De quem vou querer ficar perto e só perto, sem falar (e perto de quase mais ninguém)... e dizer que é a pessoa mais linda que já “vi” na vida? Não há quem. Não há alguém. Ninguém.

2 comentários:

Paula disse...

vejo que há bastante de mim aqui, não só o que foi escrito para mim, diretamente e/ou indiretamente, mas resquícios da minha vida ao longo dos tempos.

obrigada por pensar em mim.

Pó & Teias disse...

Não sei quem és tua musa, Valentina, mas escreves muito bem!