sábado, 8 de novembro de 2008

Nudez

       Sou úmida. Sempre de olhos líquidos e, agora, bem em cima do asfalto quente, ensopado, borbulhante e imundo de mim já não lembro o gosto que tive ontem. Engulo espaçadamente gotas de chuva ácida e fria, gotas quentes e salgadas e, entre o milímetro disso e aquilo existe a vastidão: paira tênue um secreto bem-estar subindo pelas pontas dos meus dedos, enraizando no meu cérebro... tudo, tudo o que arranhava antes, e que agora só é meu futuro imediato. Nesses tempos a vida soa excêntrica e imediatista, sempre soube de tudo isto e falando agora, sei bem que lhe parece muito pouco.

       Quero mais que o mundo todo respirar, expandir, fluir junto à enxurrada ali do lado, ser-água e quase me torno a própria água. Sem movimentar muito e não estragar o tempo paralisado no próprio tempo, os olhos que olham nos olhos e a vida que bate na própria vida. Um coração enjaulado na mão, − tudo suave, tudo cinzento, os passos em volta, a lentidão aberta das estacas d’água, o hermetismo dos carros... e o mundo agora nu, preso na minha retina que já fotografou números enquadrados, paredes verdes, vozes que penetravam, perfumes que nos encostavam e palavras que se acrescentavam...

       Agora é um oco, vasto-nada correndo em silêncio porque não se pode gritar. E não se pode mais agir, fecha os olhos, entrega-se como mais um corpo, a mais, e de mais a mais, sempre fora isso, no meio da multidão e sendo só. Pedaços de mim vão subindo, outros descendo, se misturando ao asfalto, à água suja, todo meu amor é minha lama e ainda tento me levantar, mover os braços e gritar... engulo amargo.

       − É breve, lástima, verme! Tudo passa, dá-me tua mão, entras no perigoso e labiríntico caos de mim: me puxa pra fora, me estilhaça contra a parede de vidro e me remonta. Ando meio zonza, atravesso meio mundo. Dou um trago, mais um, mais um, mais um e me acabo porque eu precisava reviver. E volto, refazendo o caminho anterior, recolhendo tudo o que era meu e dessa vez, quem anda nua sou eu.

2 comentários:

Voz de Eco disse...

Fabuloso!!

Lembrei-me disso:

Não ouse que não sou sua
Essa aura de serenidade
Protege fêmea arisca
Sob o signo da lua

Olhe sem tocar-me
a pele com teu ardor
Minha natureza repele
Quem me devassa sem pudor
Só porque ando nua

Iriene Borges

cackau disse...

"Mas um cinza tão bonito não se vê..."


=)