Silêncio: prédios desabam em mim. Enquanto por fora tudo é tácito e paixão. Flamejante bandeira da sensação por detrás de tudo aquilo que sinto, secretamente, atrás, bem atrás do que posso sentir: pressinto. Canso-me de tudo, dos ossos e orifícios, sou anil enquanto olho para baixo e choro num piscar de sanidade; meu limiar de distinguir as coisas minhas das coisas tuas. A igualização foi algo que aprendi e tomei, secretamente para mim, sem saber que tomava, e tomei, tomei sem saber que engolia como comprimidos, oito ao dia e mais esses, que não sei quantos são e quantos se somam a mim. Se somam. Ódio da benevolência: estou consciente do que digo e inconsciente do tudo que sinto, mal estar das inexatidões quase que por si só exatas e eu não sei mais.
Disse-lhe que sentia, e eu sinto. Choro destrambelho, porque sinto demais e não explico e é por que não consigo. Fiz sinal de silêncio intuitivamente ao fim da frase, não deveria tê-la dito, ao fim, percebo que as coisas ficam suspensas, quase que imediatamente suspensas quando eu termino: plainam no ar, feito poeira quando uma fresta de sol bate na escuridão parcial e dá-se as mínimas partículas, que seriam imperceptíveis, - se não fosse o sol – e assim são as minhas estreitas e toscas palavras... todas suspensas, plainando, ofuscadas mas às vezes brilhantes... até que se chocam no chão, de uma vez e não se têm mais notícias, não se apercebe e nem se pode tocar com os dedos, cristal de mar, secreto de mim e por vós.
Acometer-se seria tudo isso que choco aqui diante de mim mesma? Cenas do meu final-começo. Nasço entre as palavras e me choco entre as grandes crostas no mar; sou livre para morrer, quero. Quero querer e quero frasear a minha morte-vida entre as palavras e o meu grande choque de tudo nas entrelinhas do mundo: respiro, bate, pulsa, pula, germina, oco, vazio, nada... estrelas, constelações, meu osso do calcanhar roído e qualquer dia vou além, do ponto, da margem, da igualdade e pulo. Olho para o lado e só agora, juro, percebo ser noite, e é noite, e sou de verdade: estômago dolorido, cigarro preso entre os dedos, infância, olhos, pernas e meias. Tenho a sombra e a mulher, tenho o mundo e pés e, no entanto não consigo andar porque quero ficar aqui, espero o tempo passar e espero você ficar, porque escrevo na minha loucura, soprando cinzas e esperando o tempo parar de girar... começo no fundo de tudo do que digo a me perder se não prestar muita atenção na palavra anterior, mas não quero prestar, porque só escrevo para me libertar, para te libertar de mim mesma, dou um sopro novamente, uma gargalhada de antemão, pois sei, sei o que virá e prefiro gargalhar antes. E mais no fundo ainda começo a duvidar da perspicácia da invenção: será que foste inventada?
Vejo reflexo e sorri. Olho para mim e pergunto-me também: acabou? E é só isso e fim? E eu queria que fosse mesmo assim e sempre assim: eis o fim! Mas não é, sigo o que há em mim e não se cala, emana algo que esvai e é eterno, eu ainda não sei se gosto de coisas eternas, mas sei que isso não se cala nunca, como os dedos que trabalham para sempre seguindo ordem de não sei bem o que, se um pensamento, se um atrás, se uma simples ordem do cérebro ou sabe-se-lá-o-quê. Obedeço a ordens e essas são minhas. Secretamente minhas e segredadas. Às vezes sôo fictícia demais, mas não sou. Tudo é verdade, mas não posso provar porque meu pensamento é ilógico e eu sou toda ao avesso. Entenda-me ao captar-me no instante que se segue: aço estica e estremece a cabeça sã, porém, ligada à loucura de maneira imediata. O homem fecha os olhos enquanto a mulher sorri. Estou espiando, com centenas de volatilidades de pensamentos algumas dúzias de hóstias na mão; espírito nu e corpo trêmulo. Engulo todas, em sonho. Porque na realidade eu não poderia comungar, é pecado, mas comungo por ser pecado, na tentativa de que um padre me reconheça na fila como pecadora e me excomungue, mas bem sei que isso nunca acontecerá: continuo me redimindo aos olhos de Deus. O homem abre os olhos e a mulher para de sorrir, tocam-se pitorescamente, quase sem se tocar e se afastam: sentem-se tão iguais que não precisam de muito, escolheram-se e se são. Mútuos e magníficos em sua grandeza de que existem um para o outro e nada os tira de tudo isso: amém. E eu flutuo na extremidade da pele dos dois, sem que percebam e sem os tocar, sou-lhes porque os criei e me são, enquanto tudo pode esperar.
(Eterno não tem princípio nem fim, isto me basta! Parece suficientemente bom para eu ter a certeza de gostar, gosto. Tenho dúvidas quanto às coisas, e palavras, e pessoas que me cercam, mas por via das dúvidas e dívidas, se elas forem eternas, sem princípios e fins, tornam-se adoravelmente desconhecidas e deliciosas de se ter.)
Continua...
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