domingo, 20 de julho de 2008

Coração de Furacão

   Fora banho mar. Vômito contido logo pela manhã; passos miúdos suspensos no ar; nunca saio do lugar. Esses poros abertos que me olham debaixo e que espio de cima, nunca saio do lugar; vômito contido hoje às 09:27: será amor, Doutor? Meu coração, dessa vez; por via das dúvidas, dívidas e amarguras, preso dentro do corpo, doutro corpo, tórax: câmara feita de ossos e coisa de repouso... bate... respiro!

   Revolta ao amanhecer, coração atordoado, pulsante entrelaçar, era não o amor, não o amar: sonho todo bêbado, trocado de pernas entre as pernas minhas e alheias, gargalhadas e sorrisos e como são bonitas as flores de Pequim! E mais um desses repugnantes que deveria cuspir: sentimento, direto ao chão, e veemente, ávido, queria ir logo à parede, ao infinito se pudesse: guardei, guardo ainda, com gosto ruim na boca, com água para segurar, empurrar, e biscoitinhos do café da manhã para que seja doce e triunfal a minha entrada no entardecer.

         E a tarde fora enlouquecedoramente atordoada: "stars grinding, crumb by crumb... " e coração fisgado agora ponta cabeça eu escrevo:

   Morra-se e eu termino de matar-me. Morram-se (menos uma) e eu consigo viver-me até o último gole, a última tragada, o último tudo do mundo; fiel lágrima, desesperança amena hoje-já, inquietude solitária na cadeira, agora mesmo no chuveiro, logo mais na cama fria de molas. O entardecer já passou, a noite chegou. A festa acabou: todos os risos, todas as lágrimas, a fúria, o choro, a espera. Bater de unhas no plástico da cadeira e a meia dúzia de palavras trocadas: o desconhecido.

   Correr na sensação enquanto tudo acontece bem diante dos meus olhos correndo perplexamente: perder-me sem perder completamente de tudo a consciência exata e levadamente apalpar meus olhos inchados e cansados; glória ao despertar da maturidade órfã de qualquer coisa... solit.....ousei. Solidão! É sobre solidão que tenho de dizer. Solidão o que sinto; antes era solitude a minha estada na cadeira, na poltrona macia da sala de estar, nas idas e vindas da cama até os livros ou o diário, lamentação, computador, máquina de escrever.

   Solidão agora, implacável, como osso mastigado, osso de fibra sintética, coisa de pet shop, cortando os pulsos com o vento, roendo os tornozelos de tantos passos rápidos e certeiros contra o chão concreto e que sempre me odiou; ando só, quando não esperava, − secretamente só −, por que finjo ser invisível, por que passo pelas ruas escuras e pelas sombras das árvores, por dentro dos prantos e por dentro de toda a chuva que vier... sobre o que digo? Constelações despedaçadas, migalhas e A mulher.

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