sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sonho

       Minuto após minuto e a vida só é sólida e eu? Inamovível. Compõem o triunfal olhar, – sou viajante e tenho muito prazer em borbulhar todo o meu desgaste na cama de ninguém, e despertar com o sol me irritando, me sacudindo e tudo porque não, eu não sei a que horas ele chegará – todos, estes bem aqui, que eu nunca esperei que viessem, que eu, justamente eu... nunca quis que partissem. Meu corpo todo está ereto e nesse segundo (e certamente nos próximos que virão, até a minha morte) não faço nenhum movimento brusco, como se eu tateasse o ar com uma suavidade divina. Meus olhos, pois bem, esses jazem num mar de todos os sais do mundo e são contraídos, porque dói... e eu acompanho o toc-toc dos sapatos, o movimento das saias e vou ao vácuo do corredor e tudo em mim dói (contração).

       Meus dentes, boca, meu rosto, tudo em mim brilha e vou até a sala sorrindo, não rindo, não sinto nenhuma felicidade pungente... no entanto, sinto que meu coração seria capaz de saltar do meu próprio peito, de tanta força. Borbulhas novamente, o champagne e todos sorriem ou riem alto, me interesso pela selvageria das pessoas. A selvageria contida enquanto as luzes estão acesas, enquanto o ar é agridoce e os meus olhos as acompanham, chamo a Didi e digo para que continuem servindo champagne, cada vez mais, e agora whisky para os rapazes, e o mais depressa possível, ela corre. Todos devem se divertir, todos, e até eu mesma, em espasmos e contrações, em dúvidas e anseios.

       E de novo, o toc-toc perturbante, que eu conheço muito bem, que me faz estremecer, que me faria parar toda a festa. Mas não, converso, viro minha bebida num só gole, dou um nó numa mecha do meu cabelo e ela se aproxima, olha para mim e percebo que chorava. E ela percebe que eu me divertia, supõe que eu me divertia. Puxa-me pelo braço, pela minha própria casa, como se todo o caminho até meu quarto de hospedes fosse secreto, como se tudo aquilo, as paredes, os móveis e as pessoas fossem componentes dum jardim que só a nós pertencesse! E na pior das hipóteses, eu receberia uma bofetada por sorrir demais, por beber e fumar demais, por ser humana demais... já me aconteceu antes. E na melhor das hipóteses, ela não diz nada, diz que está tudo resolvido, que se resolveram: claro, eu não tive culpa alguma! Fiz uma festa para comemorar isto, hospedes em casa, céus!... penso, enquanto estou encostada na parede, ao lado da porta, por que sim, ela pediu pra que eu esperasse.

       Espero, passa um amigo, tomo da mão dele o copo cheio e dou em troca o meu vazio, sento no chão, espero. E por fim a porta se abre, olho curiosa, nada mais me surpreende e isso é incrível. Não me levanto, não me movo, respiro, trago, continuo olhando, desvio o olhar. Dentro me encho de rancor, de ódio e me pergunto sobre qualquer capacidade, sobre a capacidade, penso na morte, na minha morte e em como ela seria rápida e poderia ser naquele dia mesmo, num minuto seguinte aquele, tudo porque naquela altura eu sentia toda a miséria que sou mascarada por alguns sorrisos e... continuava, contraindo meus olhos, revirando tudo o que era meu por dentro e eu doía tanto, e não poderia gritar.

       Os passos vieram, sem toc-toc, descalços, confusos bem diante dos meus olhos. Mas eu só olhava o outro corpo, estirado na cama, sem fazer um ruído, sem provocar um transtorno: está tudo bem, vai ficar tudo bem – eu pensava... e aceitava ternamente, como deveria ser. E ela sentou-se ao meu lado, pegou minha bebida e tomou tudo, pegou meu cigarro e não devolveu enquanto um silêncio opaco circulava entre nós, enquanto eu só queria entrar no quarto e deitar na cama e dizer que tudo bem, que eu iria embora da minha própria casa, que por mim o sentido de tudo aquilo era o anti-sentido e que eu a amava muito mais do que qualquer amor ou vontade ou desejo gritante e mordia os lábios e tomava coragem e a coragem crescia e eu me decidia, e eu entraria no quarto e falaria aquilo e faria isso mesmo, coragem, coragem, coragem e tentei pegar meu cigarro de volta: o último trago e coragem!

       Mas um único movimento foi capaz de desmoronar tudo o que a minha coragem poderia produzir e pela primeira vez na vida fui beijada sem que eu quisesse o beijo, sem que eu esperasse, sem que eu jogasse cartas, sem que eu soubesse que no fim iria dar certo por sabe-se lá qual motivo e pela primeira vez chorei e não soube o motivo também. E como um sopro, um vento doce e dócil no meu ouvido ela me disse que ficaria, que não se permitiria, que não agüentaria... e eu ouvi tudo, ouvi amando, como quem sempre amou e mesmo que eu quisesse fazer algo: nada poderia, estava enfeitiçada. (minutos, minutos em silêncio)

       Ela levantou, foi ao quarto e eu me afixei na cama, me asfixiei na cama, num gás em que nós morreríamos. Juntas e fui até lá, me deitei e disse tudo o que eu tinha pensado antes, tudo o que eu teria feito e uma voz generosa diz que me não tem graça mais, que existe outra pessoa, e que nosso amor é do tipo maior que o mundo (alívio). Deito-me, abraço, cansaço e o mundo vêm vindo todo de uma vez me atropelar, alguns amigos entram no quarto, se amontoam em cima da cama, me sinto somada!

       Todos apertados, falando alto, mudando e mudando de lugar, e ela chega até mim. As vozes vão se distanciando, meu ideal de amor está feito, pois as nossas mãos estão dadas, e as nossas palavras vão se completando por dentro da escuridão e as pálpebras não se fecham e os desejos são muitos, mútuos e deliciosos... mas o silêncio é avassalador, e tudo se cala, se encaixa, o sono aparece, como uma surpresa desagradável e nossos corpos vão perdendo as forças, os olhos vão se fechando e a última palavra que me lembro ter ouvido antes de adormecer foi: nuvem...

Um comentário:

jão disse...

festas de fim de ano tem dessas coisas...