terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O Ponto

       Enquadro-me no espaço em branco, emoldurado na parede porque no quarto já não tenho lugar. Noutras horas sou o ardor das plantas dos pés marcando o chão, deixando rastros por todo o quadrado, vazio, noturno e de ar quente, imundo. Arranham as cordas aqueles – poucos – que precisam falar desse jeito unilateral e estridente e tão faminto. Passo ao passo que digo coisas sem sentidos, vou indo e somando anseios, moendo horas, tendo tempos para ser tempo e estar em cima do espelho, e ser o ponto: nesse instante eu me sufoco!

       Ando atrás do pensamento, percorrendo o vento de ontem, o som do instante passado, da mortidão do anteontem, o meu além é uma penetração decadente e orgásmica. Mil dessas coisas fulminantes permeiam o que do chão sobe ao teto em fricção, em movimento exaustivo que aos meus olhos são preguiçosos, tênues... tão crus de qualquer memória e esperança e nem eu mesma reajo diante do inesperado; ouço qualquer coisa que há muito me impermeabilizou em êxtase.

       Penso que Nossos desejos devem ser reagentes de Nós mesmos: nem nossos passos, nem mesmo nossos pulos, essa languidão, a batida de coração e o sorriso malevolente, o grito esquecido no canto do quarto, os cigarros em cima da mesa, a chave debaixo do travesseiro, a janela toda aberta... esses olhares que nunca dizem algo, e as mãos que se movimentam rapidamente na tentativa dum sussurro trambique criativo, de tocar as pontas dos dedos de um arranha-céu, de contradizer qualquer infortuno de ontem ou esconder a escuridão em flashes, fósforos ou guimbas de cigarro no cinzeiro

       – Os desejos são mais fortes, mais fugazes e mais volupiosos que Nós mesmos. Num momento não se quer nada, não se pensa em absolutamente nada, gelatinoso e estagnado, somando-se a qualquer coisa, adquirindo textura e tonalidade e noutro momento, após o desejo avassalador vindo à sua mente sem qualquer consciência, querer ou concentração; está tudo acabado, prestes a ruína certa, teu corpo tornou-se o próprio desejo, a própria fugacidade, volúpia, força: és agora volátil.

       E lançou-se aos mundos da imaginação disforme. Irrealidade, e não sente mais o nó que embatucava sua garganta em outros mil nós. E depois do tudo, pressente o estardalhaço da tentação, és O Ponto.

 

 

       . és o início de qualquer tentação. És.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Sobre as sensações

       Depois do mundo, é o secreto que respira por nós e somos nós que, também, caminhamos com um olho fechado e o outro de qualquer jeito. E depois, um pouco depois ou não: caindo, lamentando, amando, gritando porque chorar não adianta mais, ir indo e rindo percebemos que a vida segue num rumo sem prumo. Numa coisa sem linearidade e na ousadia sublime do instante, que pulsa, retroage, bate no coração da própria vida e do nosso próprio pulso. E assim, vai: amargo, tranqüilo, amando odiar-se e odiando-se amando, invocando o mundo, provocando tempestades, impedindo ou fazendo tufões e maremotos. E quando pára, adormece no encanto e no quarto em silêncio seja por, talvez, ter sido tomado por aquela diferença básica entre os seres: não sabe e não sabe que não sabe, sabe e sabe que sabe. Este e em resumo de toda a grandeza é motivo de silêncio e ausência, sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância[1].

       Acorde! Com a sensação de ser um soberano, um rei, um príncipe, um semideus e, a verdade é que... não dormiu tanto assim e tudo o que fora sonho já se perdeu, esfumaçou na medida exata em que, intuitivamente, seus olhos foram abertos. Porém, à parte, tens agora a consciência de tudo aquilo, de horas atrás, de ontem. E, por isso, captou a essência da manipulação, consegue usar máscaras. Consegue escrever não sobre seu signo lunar, mas sobre seu signo ascendente, sobre o que realmente sente. E se, por acaso, começar a pintar; suas pessoas, paisagens, corpos, seriam inteiramente disformes, pois depois de toda a descoberta da ignorância defronte você e a humanidade, tudo o que enxerga é assim: disforme. Mas não, olhando-o na rua, andando para pegar o ônibus, você é completamente normal, não é um novo personagem de Freaks, muito menos uma das pinturas do Schiele, mas é que a arte é uma mentira que revela a verdade[2] e é por isto que escreveria sendo transparente, mas, falaria, ainda assim gaguejando porque é tímido demais e usaria ainda as suas poucas palavras de sempre.

       E mesmo assim, com todas as descobertas, redescobertas, caminhos a seguir, passos não dados e quilômetros rodados, centenas e centenas de máscaras trocadas. Depois das inúmeras sensações que sentiu de ser tudo, desde semideus a reles. E além, todas as vezes que fora além do ponto, sempre além do ponto e as sensações que viraram personagens e as personagens que viraram exatamente você. Um dia um Maquiavel contra si mesmo. Mas sempre, em todas as investidas de ser não sendo exatamente, sempre fora seu próprio amante. Thecov já dizia que o homem é o que ele acredita ser, e foi nisso que acreditou no tempo magnífico de todas as personagens que vivera e, que mais tarde foram literalmente mortas, assassinadas, arruinadas, suicidas, fatalistas. Mas que ainda assim, não deixando de ter carne, ossos e vasto estrago viveram com um coração na mão, esquivando-se do que vier e ouvindo o sopro da vida. Por isso talvez digam que a arte imita a vida, ou talvez nossos “bichos” depois de criados tenham autonomia própria, uma espécie de vida, e fique em baixo quem tiver coragem de domar e os quiser novamente; pois há neles a vontade de respirar, de expansão e contração, de um certo amor liberto do mundo e das verdades tão ditas: nunca limitam-se.


[1] Citação de Sócrates.

[2] Citação de Picasso.

sábado, 8 de novembro de 2008

Nudez

       Sou úmida. Sempre de olhos líquidos e, agora, bem em cima do asfalto quente, ensopado, borbulhante e imundo de mim já não lembro o gosto que tive ontem. Engulo espaçadamente gotas de chuva ácida e fria, gotas quentes e salgadas e, entre o milímetro disso e aquilo existe a vastidão: paira tênue um secreto bem-estar subindo pelas pontas dos meus dedos, enraizando no meu cérebro... tudo, tudo o que arranhava antes, e que agora só é meu futuro imediato. Nesses tempos a vida soa excêntrica e imediatista, sempre soube de tudo isto e falando agora, sei bem que lhe parece muito pouco.

       Quero mais que o mundo todo respirar, expandir, fluir junto à enxurrada ali do lado, ser-água e quase me torno a própria água. Sem movimentar muito e não estragar o tempo paralisado no próprio tempo, os olhos que olham nos olhos e a vida que bate na própria vida. Um coração enjaulado na mão, − tudo suave, tudo cinzento, os passos em volta, a lentidão aberta das estacas d’água, o hermetismo dos carros... e o mundo agora nu, preso na minha retina que já fotografou números enquadrados, paredes verdes, vozes que penetravam, perfumes que nos encostavam e palavras que se acrescentavam...

       Agora é um oco, vasto-nada correndo em silêncio porque não se pode gritar. E não se pode mais agir, fecha os olhos, entrega-se como mais um corpo, a mais, e de mais a mais, sempre fora isso, no meio da multidão e sendo só. Pedaços de mim vão subindo, outros descendo, se misturando ao asfalto, à água suja, todo meu amor é minha lama e ainda tento me levantar, mover os braços e gritar... engulo amargo.

       − É breve, lástima, verme! Tudo passa, dá-me tua mão, entras no perigoso e labiríntico caos de mim: me puxa pra fora, me estilhaça contra a parede de vidro e me remonta. Ando meio zonza, atravesso meio mundo. Dou um trago, mais um, mais um, mais um e me acabo porque eu precisava reviver. E volto, refazendo o caminho anterior, recolhendo tudo o que era meu e dessa vez, quem anda nua sou eu.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Duas: quase três

       Pálpebras enormes e lágrimas ardentes velam um sono que eu não veria nem de olhos arregalados. Além da minha planície gelada, com os pés descalços vou repetindo algumas dúzias de palavras bobas e é só por que depois do meu fim, ainda lhe faço dormir.

       Metade de mim é você e a tua metade que não é sua mais me é. E nos tempos mais dóceis, nos segredos mais inexatos dos ventos, agarro essa verdade aveludada com a ponta dos dedos e respiro o que for de cheiro... e sei bem que me perco nas idas e vindas do gosto que completa o meu, na realidade que é minha fuga. De toda nossa percepção em comunhão. Nós.

       Línguas desdobradas, palavras impermeáveis e coisas sempre desarmadas. Vou me desmanchando aqui e depois reabrindo de novo; tudo o que eu já deveria ter lhe dito. E tosquiando meu pensamento e os dedos: fecho os olhos e espanto! Enxergo displicentemente o mundo de Psiquê e o amor. Reconheço o sonho e todas as palavras que completam e completam e giram em torno das minhas.

       Venta frio, sombrio e forte. Mas não, não chove mais. Gosto de toda essa força e talvez essa insuficiência toda tenha se dado porque é primavera e minhas páginas estão querendo saltar pelo quarto: tudo o que faltar, o vento levou. Hoje a insuficiência de palavras quem causa é o vento, não que o fluxo não tenha sido grande o bastante, - é que vou com o fluxo, como se, contudo, eu fosse remetente e destinatário, mensagem e código... e o vento, toda a força é você.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Cena erótica – sobre divãs

       Sento. Levanto: morro de véspera. Agudo! Inusitado permeia as idas e vindas do dedilhar nas teclas disso ou daquilo que conduzo com pouca destreza. Mordisco o lábio inferior. Um suspiro! Puxo um cigarro do maço nem cheio nem vazio, acendo rápido e trêmula. Trago forte, direto aos pulmões: a todo vapor, a todo vapor, vapor, vapor?!... já não sei.

       É vasto, contudo, continuo minha cantiga, toda a minha esperança que conduzo num pacto comigo mesma. Levanto, sento, estremeço inteira, já sou um gatuno de olhos cintilantes observando as erupções de um intelecto-vazio e de uma mente quase que completamente sã. Confesso tudo, pois estou na hora do desenrolar, desenrolar-me de cobertores, fios recobertos por camadas e camadas de espécie de algo superior a ouro e santidade além de qualquer santo: minha antítese da nudez e o divã.

       Conto sete passos, falo sobre todas as coisas, e ao certo não sei sobre o que digo. Era manhã, e eu sentava, levantava, fumava, mordia o lábio, roia a unha do dedo mindinho, escrevia, mordia a caneta que usava para rabiscar os erros que eu mesma produzia enquanto redigia pensamentos desconexos de mim ao laptop anos 20. E agora é à tarde e estou aqui; com a folha amassada entre as mãos, deitada contidamente, olhando a sala limpa, arejada, repleta de muitos livros e poucas estantes: livros que servem de bancos, bancos que servem de livros e vice-versa. E uma parede em especial me prende a atenção, não se usam mais papel de parede, mas aqui tem e é beige, com ornamentos sutis em verde claro, um verde que se mistura com o beige, sem deixar de ser verde claro, embora eu não saiba identificar bem, ou explicar exatamente o tom de verde, talvez um musgo bem, bem clarinho e suave. Nessa sala tudo é suave...

       Livros muito antigos. E os passos Dele são lentos e sua voz é mansa, tão mansa que quase me conduz a um sono leve. O chão é branquíssimo, e tem uma enorme janela, que se faz passar por parede, com uma cortina de voil indiano branco, que eu poderia descrever como insignificante se não fosse tão bonita! Fecho os olhos, sempre fecho os olhos porque, bem, tenho de me concentrar nas minhas palavras, tenho de não olhar para os olhos azuis por detrás das lentes dos óculos Dele e tenho de também não prestar atenção na sua boca silabando as palavras que eu quero ou não ouvir. Ele me indaga sobre porque não correspondo pessoas que não compartilham os mesmos sentimentos que os meus; isto de modo geral, sentimentos como um todo. E eu não consigo explicar, esquivo-me de tudo, sempre, do mundo, esquivo-me de grande parte dos acontecimentos, mas continuo vivendo, e desta vez, comigo ao divã, vermelho-sangue, e ele sentado à poltrona, vermelho-sangue também. Olhamo-nos friamente, neste instante que esquivo-me da indagação que não foi necessariamente uma pergunta.

       Ele é um sujeito pacato, sensato e inteligente. Acha que sou uma artista, uma escritora; duas vezes por semana se põe a ler calmamente e criticamente tudo o que produzo, embora, eu, timidamente não goste de lhe mostrar minhas produções. Ando adversa, ando sem andar, compenetrada no meu eu e analisando os demais; grande parte disto devo a ele, nesta convivência sem defasagens e com uma margem de erros mínima. Levanto-me, olho os livros calmamente até chegar à janela e lá fora parece tudo tão calmo e é por que não ouço ruídos, barulhos, buzinas. Volto ao divã. E no exato momento em que me sento, lembro-me de uma conversa intensa, porém breve:

              Ella: Quando você vier, aonde prefere?

              Sabina: Prefere o quê?

              Ella: Fazer sexo comigo!

              Sabina: Tenho tantas opções assim? Sua cama é de casal?

              Ella: Gosto de fazer sexo na banheira... minha cama é de solteiro.

              Sabina: Nunca transei na banheira, mas parece interessante!

              Ella: Já sei pra onde te levo. Você vai comigo ao Divã; vai ser sempre no Divã!!!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Segredos para Lottie

       Se o tempo parasse, para então eu juntar todas essas coisas perdidas nos pântanos, a vida seria melhor, Lottie. Tronco luxurioso. E os meus olhos se enchem de lágrimas, e as minhas lágrimas se enchem de alguma coisa secreta, que vem do delta no seu paradoxo venusiano e inatingível; tornei-me incansável nas investidas de olhares avessos e retóricos. Pois sou eu quem se cala sempre e quem se despede sem um aceno, vou indo de leve, de mansinho, deslizando no infinito, como se a mim fosse tudo confidenciado: o prelúdio do fim.

       Tiraram-me as mãos dos antebraços, tiraram-me os braços dos ombros e as pernas para que não eu possa chegar até a ti. Tenho olhos culminantes e até o mais distante e grave deslize consigo gravar na retina, fotografar por detrás dos cofres encharcados de sal e água quente. Vim do mar porque não tive outra escolha, e por isso meus olhos são cristalinos, moles e líquidos.

       Coro as bochechas, a face nua inteira. Vejo-lhe sem saber exatamente o que és. Sigo a estradinha que me leva até o caminho do encantamento, até o portão aberto e depois a casa toda sem móveis e as janelas abertas, redemoinho de poeira e cabelos louros subindo, subindo, dançando no meio da sala de jantar. E aqui sou o som de tudo em volta, sou os passos, e sou a mobília e sou os convidados e sou a própria comida. Faço-lhe o favor de me calar.

       Ando percebendo – sem andar – aqui mesmo, bem como o mundo é... petit Lottie, a vida traga-me num desajeito tão grande, num desgosto imenso e eu, enquanto só eu; quero remendar tudo, sair costurando as nuvens, os grandes buracos acinzentados que percebo quando olho para o céu nesses dias de setembro. Embora toda a chuva e ventania e toda a eletricidade pairando no ar me cause um êxtase e felicidade enorme, sinto vontade de sair remendando tudo, deixando as coisas como deveriam ser, ou todas brancas, como se o céu fosse todo de algodão ou todo azul, profundo e tácito.

       Mas não, eu não seria capaz, sei que há a volatilidade. E também sei que as coisas giram, e por tudo isto, desisto. Mas não morro. Continuo, e não disse quase nada, fico atrás do pensamento. Falo no destrambelho a mim mesma, porque contudo há o que sobra, palavras perdidas nas entranhas, grudadas na mucosa, na relva, nas plantas selváticas perdidas por entre os dedos de Lottie, que me espera, adormecida na cama enquanto penso que ela me ouve.

       Falo e falo sobre o dia, sobre a brisa da manhã, sobre a volta, o porvir e o amanhã. Mas, não, Lottie é só uma menina e já está dormindo há pelo menos uma hora num sono profundo, mas leve, leve... a mãozinha encostada no rosto, mechas louras perdidas por todo o travesseiro e o corpo todo desprendido do resto, como se flutuasse no ar, mesmo em cima da cama, atrás de mim. E eu, uma egoísta, tenho vontade de acordá-la, sacudi-la e contar tudo sobre o mundo, sobre todo mundo e lhe dizer que, apesar de, há esperança e “apesar de, se deve amar”.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Ecos

       Não só eu gargalho; não só eu, prolixamente gar-ga-lho. Há!Há!Há! Essas coisas todas impermeáveis vindas de outros séculos, ressonando no tempo de todos os instantes. Olho fixamente para o lado de fora, pela janela porque não quero perceber, aperceber-me olhando-a e só quero ouvir e até nunca mais.

       Eis o reflexo: bestificada e atenta, sou eu quem acena à medida que o tempo urra, sou eu quem tem medo dos autos, das coisas, dos falantes, das ações e do lado de fora. Pois eis que há a ascensão contra a demência e eu estou sentada nessa poltrona, encolhida no mísero canto que permito-me, no canto de cá e por nós: sou tu-eu, eu-nós, és-tudo. Enquanto tudo girar e eu encontrar o fecho ou seria desfecho? Quero calar esse fluxo, coisa destrambelhada que espalha de acordo com a altura do meu pulso, a palpitação dum coração que no descompasso se contorce inteiro porque ainda há vida e há de se viver.

       E se tudo há é por que não só eu sou assim e equivalem-me em se deixar. Ela de repente sorri, e de repente fecha os olhos enquanto sorri e depois está gargalhando e depois não tem mais fim e eu estou acompanhando, mas como em câmera lenta, como se o mundo – nesta altura – já girasse bem, bem devagar, num sentido primordial para que tudo acontecesse em perfeita simetria e felicidade. Deve ser essa tal ressonância, essa tal impermeabilidade que não deixa infiltrar respingos de outros lugares, outras coisas que não seja o som secular que ainda ouço repetir...

       E logo desdobrar-me-ei em festim, confete e serpentina. Serei esse tal carnaval que só ouço falar, serei ainda mais que a minha gargalhada inconfundível ao entrar em qualquer lugar ou ao sair. Deixar essa marca na volatilidade do espaço me é algo sensual e tentador, eco da repetição, colagem da palavra, do som sem entendimento, signo, cercles, e não estarei mais a ser acompanhante e mera observadora: serei o que circula. Tudo em volta.

domingo, 28 de setembro de 2008

O divã

       Frases complacentes permeiam minha mucosa. Rodopio na inexatidão de um segundo enquanto respiro e... silêncio: espero o tácito prazer da certeza, fecho os olhos, enquanto reproduzo sons de outros continentes, tant pis, tant pis. Estes, quebrados em pequenos acordes inundam a sala, minha coisa saindo da boca e dizendo tudo o que deveras sinto, sou eu e nada mais.

       Limito-me em ser. Sento-me na poltrona em frente ao divã enquanto o Sr. Invisível limita-se em queixar-se sobre o que deveria sentir. Sinto as dele palavras titubeando na atmosfera, sei que sua fala é quase primitiva, no sentido de não conhecer o que se diz e ouvir somente o que digo, como: circunstâncias, limitar-se, porquê, talvez... (...). Meu pensamento desloca-se no ápice desse tempo inexistente e transmuto-me novamente para trás; quando falava antes sobre eu: rogo a quem toda essa aprendizagem forçada, no deleito obscuro da solidão enquanto sempre vivi sem perceber?

       É o vento soprando, forte, estridente, os papeis querendo levantar vôo, as cinzas formando um pequeno redemoinho e eu aqui; olhando tudo de camarote enquanto penso sobre o que há e sobre todo o resto que não deve existir porque não conheço, ainda não conheci. Preciso respirar, abrir paredes, expandir-me na medida em que os minutos passam e as linhas das páginas são preenchidas de idéias que eu mesma não consigo compreender bem. Ainda, porque ainda ouço o Sr. Invisível falando e falando, agora, sobre o que não sente e como tudo isto incomoda-o.

       E os sonhos são leves, e breves como espuma. Ele é uma dessas pessoas que não percebem ou não aceitam a mágica do porvir, do completar ou talvez: completar-se. Digo a ele que, quando tudo é breve, leve e frágil... devemos então, em vida novamente, completar, do jeito que nos cabe, como nós nos permitirmos. Sr. Invisível me reprime com um olhar fulminante de repulsa e se cala. Então me calo também. Silêncio é tão acolhedor quando não se têm verdadeira vontade para conversar e é tão verdadeiramente sombrio quando se quer falar e tudo é inapropriado e monstruosamente calado demais.

       Meus ossos parecem se fragilizar de acordo com que o tempo passa, sinto o meu corpo querendo ir para algum lado e não tendo saída, os ossos são comprimidos, estilhaçando-se, esfarinhando pouco a pouco e logo estarei rastejante ou enfim livre e elástica. Expandindo e retraindo conforme a condição dos nervos, do mundo e de todo o silêncio, apaziguado ou não por verdades, mentiras ou situações em que tudo pede um só grito.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Bliss

   Ela toca os lábios docilmente. Cerra os dentes, olha o homem que está de pé a sua frente; tira as mechas de cabelo da boca e coloca atrás da orelha. Cabelos ruivos, brilhosos e lisos. O homem sorri e lhe segura à mão, assegurando-lhe estar tudo certo. Estou olhando e observando meticulosamente tudo de camarote, no banco bem em frente enquanto tudo chacoalha. Luzes, sombras, mais luzes e os rostos dos dois às vezes se aproximam de mais, sinto o bliss, quase que em mim e seguro-me por dentro porque é como se a minha barriga sentisse frio, e não a deles. Ele fala sem parar enquanto a engole com os olhos puro e ternamente, como numa frieza automática, ela desvia os olhos e sorri mecanicamente.

   Sempre não posso ouvir sobre o que conversam, ouço música e se não ouvisse uma bobice me dominaria por completo, ou achá-los-ia tolos e apaixonados demais com assuntos demasiadamente ridículos ou a ironia de observá-los tão cruelmente me atormentaria e eu não conseguiria mais; a tola seria eu, a errante, que além de olhar, ainda ouve demais. Prefiro escolher um dos sentidos e agarrar-me então a ele e não soltar, nunca mais:

   As palavras se envolvem, enovelam-se, umas nas outras, da boca de um da boca do outro. De um ponto para o outro. E atropelam-se, percebo que se desajeitam quando falam. Às vezes falam na mesma hora, e logo após um silêncio horroroso de alguns segundos toma conta de tudo. E o outro resolve romper essa barreira novamente e de novo e de novo; espio com olhar de anciã, reprovando ou aprovando as aproximações.

   Tudo parece passear tacitamente entre eles, mesmo entre enxurrada de palavras e gestos quase secretos e brilhantes olhares; o homem parece perceber a suavidade que paira no ar enquanto a mulher sorri, – ela está sempre com um singelo sorriso – e se aproxima de infantil e nua: tasca-lhe um beijo na boca, desses rápidos. Ela, ela retribui e o olha com franqueza... bliss, felicidade, arrepio. E eu também sorrio, retribuo com sabe-se lá qual olhar.

   De movimentos esculpidos nos segundos, interstícios de tempos remotos e maremotos de torpores e odores de frenesi que saem dos poros sem que percebamos faz-se a paixão desligada do tato, fato, história, consumo e horror. Apenas o aprisionamento na retina: pequenas lembranças de imagens, todas estas, coladas uma após a outra, série de movimentos, fricção de rostos, gestos, formando cores, sensações subumanas, - e dá-se então, tudo o que não se sabe, têm-se o que não pode, o incapaz, inconcebível, a construção do inamovível:

   Estatelado no banco, eis-me a olhar. Eu sou, tu és. E não preciso de mais. Respiro inteiro!

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Sobra o esvaziamento, vazio

   Percorro todos os ventos porque esses percorrem entre mim e tudo o que há. Dentre todas as coisas o que posso alcançar é o inalcançável e vou levando; percorrendo mínimos detalhes entre o chão e o ar. Estopim maldito que me alavanca e uma perna de cada vez, e uma na frente da outra e um gesto sensível e uma palavra assim, saindo pela boca sem que eu saiba: tudo acontece pelas madrugadas sinceras enquanto não sei viver e não percebo morrer.

   A música saindo de algum canto do quarto, passando pelas paredes, chegando aos ouvidos daquela que dança à voz da língua estrangeira que se conhece e se beija para que se absorva inteira e não se passe em branco nenhuma falha ou ruptura de entendimento; talvez este seja o método repentino e universal dos que engolem amor, e não podem, em hipótese alguma, perder um milésimo sequer de tudo isso que se respira, aspira e guarda: nos cofres.

   Aprendi, miticamente a acreditar no divino de todas essas coisas que transmutam entre os corpos alçados nos topos, torpores, e arranha-céus. E de maneira mais sã, e ainda assim crua, vivo discernindo o que é realmente cru de mim e o que é que agreguei dessa maneira tão rápida, porém, não efêmera: és amor segredado e puramente quente. Amor de línguas e fitas que saem pelo estômago, pela ponta dos mamilos e dedos que falam, falo-te assim: vou-te ao encontro, no cheiro, junto ao vento, transmitindo mensagens criptografadas – do meu jeito ensandecido e retórico, eu e tu entendemo-nos de maneira desentendida e falamos por códigos, meu oculto não veio das convenções formais, de grandes e grandes, doutrens. Somente dois, que somos nós – que correm a mil quilômetros por hora e por agora tudo basta!