terça-feira, 29 de julho de 2008

Palavras suspensas no ar

   Meu bando ajoelhado em frente à privada, olhando teu vômito: rezo. Ilumino lava fluorescente e ave Maria: adoro! Bando de mim, corpo dividido em história: pele depois tinta, depois músculos depois toda a parte corroída pela devastação fulminante e violentada das noites e dias que me matam em piscar de olhos. Ossos, vazio oco, nada, depois o tudo, estômago dolorido, coração pulsante, e é tudo o que penso; sei que tem mais e é o resto. Ilumino-te nesse instante de veemência incontrolável: amo-te e sabe-se-lá por quê: amém.

   De todas as igualdades, risos frouxos, insanidades e amores incontroláveis que passeiam pelas nossas bocas que nunca se encontraram tudo o que mais amo é a certeza do sonho pequeno e a incerteza do que existirá. Olho no fixo ponto e não acredito ir até além do ponto de enxergar teu próprio vômito. Coisa sã que me sobe da barriga para a boca e depois para os olhos e depois pára e desce; volto ao coração e este eu não controlo: bate, respiro, bate, enjaulo afã e respiro. Sou o animal que se enjaula por dentro e sozinho; cadeado sem chave e códigos. Violência de uma eletricidade inexplicável e explode tudo; fujo arredia e corro; falo aos ventos, aos mundos; porque de tudo sou quase tudo.

   Inextricável a essência dos que transmutam sem se olhar. Passo pelas pernas, pelos braços, pelas línguas e mundos dos que vão abaixo; enquanto eu acima, olhando o meu mundo todo caótico e sem nome. Passa você pelos corpos nus e torpor de outrens que por vezes não sei quem são. Encontro-me no voraz e solitudinoso peito deles; porque descanso e não me troco. Não há trocas. Só troco aqui; onde já comecei rasgando todas as páginas de todos os meus livros escritos na pele: venerei em silêncio todos esses momentos em que se tornaram noites, dias, meses e depois, - após a coragem divindade - silenciosamente vomitei defronte algo secreto que não toco e não vejo. E logo após, - ironia -, não sei se confundo vômitos: já não sei o que é meu ou o que é teu.

   Levanto-me. Lavo a boca. Lavo novamente na tentativa de tirar todo o gosto ruim; de despejar junto à água todas as palavras que giram e batem junto ao coração: se perguntares se elas saem ou se sairão, com convicção eu responderei: não. É inextricável, é magnético, é inexplicável, boca, língua, compaixão e não passa, não mata e é só, por vezes, explosão. Olho o espelho, sem olhar o rosto, sem olhar o turbilhão petrifica que é a minha cara, que é a minha boca com tudo e ainda assim suave, suave, suave. Suavíssima sensação de correr e não sair do lugar, nunca, nunca mais.

sábado, 26 de julho de 2008

Esperança do ode (Esperança do canto)

   Escrevo cheia de crimes a cometer, porém estou lúcida: até quando, - será - que me corresponderás? À lucidez, eu pergunto. Fagulhas, álcool, cigarros e não acendo o fósforo; há o medo de que a casa pegue fogo, de que o corpo se corroa, de que a alma em chamas se perca inteira e nua. Engulo o azedume do meu peito de um jeito extravagante e vá ele, direto para o estômago corroído, amaldiçoado pelos infortunos de toda uma vida.

   Olho as coisas sobrepostas do meu jeito volátil e condescendente. Não estou a par quando não quero estar do que sombreia meu mundo, inebria a colores as voltas dos outros e o meu beijo, todo meu, que é só meu. Céu da boca maremoto, felicidade do frio e da mente sã, corpo trêmulo e um pouco de vermicida nas ranhuras: para além da loucura!

   Quero estar livre para quando o outro chegar; libre, livro, libro, Paris, Barcelona, língua no meu teto perambula todo veemente e só, não lhe digo mais. Estou a silenciar-me no deleito em que confundo a realidade com a realidade doutrens. Quando tudo me giram palavras de outro mundo, línguas dobradas e dobradas pra se falar verdades apaziguadas e eu rio, com cara devassa-amena: agora inquieto-me na frente do espelho gosto rosa ou vermelho na boca, engulo o riso, pode ser agouro.

   Agouro é verdade, coisa que estonteia a mente que parou de pensar; não quer girar nesse sentido em que alguns de nós giramos. Ainda quero estar aqui, na verdade libre, para quando eu partir em pedaços fulminantes; quando nós não existirmos e contágios acabarem. Perguntas partirão, respostas serão nem subterfúgios, nem navios, nem gatunos enluarados. Um mar todo de pétalas: o teu enterro em que eu não estarei. (O TEU ENTERRO EM QUE EU NÃO ESTAREI)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Atrás de algo a mais

   Como a vida e depois vomito: o homem carrasco e a mulher insensível. Encaro todos, os vícios, seus vícios com misericórdia e pedido, agora. Dubitabilidade a minha; estar sendo invisível. Sou fantasma encarnado num coração que bate incansavelmente, mas que um dia cessará. Infortuno o meu paradoxo sozinho que já não é mais solidão.

   Nicho a condição bela e subordinada em que encontro a paz; empilhado de azulejos, recanto perfeito e o pingar frenesi das gotas d’água. Estou “solamente-nua” colada no meu coração-fantasma que bate e baterá nos instantes que virão, vieram: me engolirão!

   − Engoli as tais palavras, a tal solidão: mando sinais de fumaça, meu fio cerebral de encontro ao teu, ligado ao crânio, morto, talvez. Bombas, mísseis, fósseis, coisas jurássicas, sou de tudo pré-história e não meço esforços ou medidas.

   Ganhei uma certa fraqueza ao ligar-me à sua existência que de tudo só me chama; igualizei toda a minha resistência para compreender que não posso cair e que só tenho de levantar quando me deito porque quero me deitar. Fui rejuntando todos os sonhos pequeninos, com cola instantânea. Reagrupando noções e engolindo junto às pílulas e comprimidos a única coisa que nunca quis aprender: esperar.

   Esperar, que mal há? Infindável a minha condição. Vou estar sempre a esperar. E tudo isso, tudo isso, tudo, aprendi com você, que vou esperar até o meu coração cessar e logo após recomeçar, até minha latente solidão reaparecer e o meu olhar se perder. E quiçá “Um sopro de vida” voltar! Sempre adversa, sempre dúbia, perplexa, paradoxal: sentindo sem sentir e vivendo sem acreditar mesmo viver, porque a constância-máxima da minha vida é a pessoa-eu-defronte-e-atónita.

   Quanto à vida, essa: meu coração bate normalmente agora, talvez umas 70 vezes por minuto, não lhe vejo. Respiro por mim mesma, sem tubos e sem sopros pela minha boca, apesar de eu achar sopros de vida um jeito gostoso de se despertar do letárgico sono. Acordo todos os dias e me levanto, com preguiça, mas sem medidas. Sorrio e espero porque de tanto engolir, tudo isso, eu, − sinceramente − aprendi.

domingo, 20 de julho de 2008

Coração de Furacão

   Fora banho mar. Vômito contido logo pela manhã; passos miúdos suspensos no ar; nunca saio do lugar. Esses poros abertos que me olham debaixo e que espio de cima, nunca saio do lugar; vômito contido hoje às 09:27: será amor, Doutor? Meu coração, dessa vez; por via das dúvidas, dívidas e amarguras, preso dentro do corpo, doutro corpo, tórax: câmara feita de ossos e coisa de repouso... bate... respiro!

   Revolta ao amanhecer, coração atordoado, pulsante entrelaçar, era não o amor, não o amar: sonho todo bêbado, trocado de pernas entre as pernas minhas e alheias, gargalhadas e sorrisos e como são bonitas as flores de Pequim! E mais um desses repugnantes que deveria cuspir: sentimento, direto ao chão, e veemente, ávido, queria ir logo à parede, ao infinito se pudesse: guardei, guardo ainda, com gosto ruim na boca, com água para segurar, empurrar, e biscoitinhos do café da manhã para que seja doce e triunfal a minha entrada no entardecer.

         E a tarde fora enlouquecedoramente atordoada: "stars grinding, crumb by crumb... " e coração fisgado agora ponta cabeça eu escrevo:

   Morra-se e eu termino de matar-me. Morram-se (menos uma) e eu consigo viver-me até o último gole, a última tragada, o último tudo do mundo; fiel lágrima, desesperança amena hoje-já, inquietude solitária na cadeira, agora mesmo no chuveiro, logo mais na cama fria de molas. O entardecer já passou, a noite chegou. A festa acabou: todos os risos, todas as lágrimas, a fúria, o choro, a espera. Bater de unhas no plástico da cadeira e a meia dúzia de palavras trocadas: o desconhecido.

   Correr na sensação enquanto tudo acontece bem diante dos meus olhos correndo perplexamente: perder-me sem perder completamente de tudo a consciência exata e levadamente apalpar meus olhos inchados e cansados; glória ao despertar da maturidade órfã de qualquer coisa... solit.....ousei. Solidão! É sobre solidão que tenho de dizer. Solidão o que sinto; antes era solitude a minha estada na cadeira, na poltrona macia da sala de estar, nas idas e vindas da cama até os livros ou o diário, lamentação, computador, máquina de escrever.

   Solidão agora, implacável, como osso mastigado, osso de fibra sintética, coisa de pet shop, cortando os pulsos com o vento, roendo os tornozelos de tantos passos rápidos e certeiros contra o chão concreto e que sempre me odiou; ando só, quando não esperava, − secretamente só −, por que finjo ser invisível, por que passo pelas ruas escuras e pelas sombras das árvores, por dentro dos prantos e por dentro de toda a chuva que vier... sobre o que digo? Constelações despedaçadas, migalhas e A mulher.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Espanca

   Reflexo único da ascensão contra a demência. Levantai-me com um soco na boca do estômago dolorido e ácido corrosivo; sou lúcida assim como as estrelas, assim como os brilhantes, assim como as angustias infâmias. Passos, contra-passos e desprezos que lançam, me lançam e lanço; dias crus e frios de golpes, dias nus e cruéis onde se dizem tudo.

   Calo na misericórdia da cama com a lágrima que escorre: com as obscenidades no fluir-entorpercente de tudo o que me gira pelo lóbulo direito e esquerdo, anti e não horário. Giro os dedos nos fios de cabelo: amém, eu não rezo. - Amém, eu peço. Escutai, não, não imploro, renego aos falantes, digo ao mundo o que me percorre na síntese de um instante, na controvérsia da minha parábola-destrambelha-loucamente!

   - Sou quem tu és! Consigo captar as vontades implícitas no que não podes sentir e sinto, vorazmente, loucamente, intensamente: sinto, pois não sente. E que lastimável, e degradante vitoria a minha... e não há desprezo, não há remorso e nem soco no estômago, só há vida, e vivo.

   Capto a energia, de toda a vida; coisa elétrica, coisa passional, coisa mundana. Não sou Espanca, não sou “P” no meu coração, nem meretriz, nem Anaïs tampouco Clarice, mas ainda assim continuo com a frase da Cecília antes de dormir; relampejo miragens, fotografias, remorsos das pessoas secretas, corações tumulados debaixo de sete milhões de chaves e sangue algum...

      - Quem é? (Sempre pergunto, mesmo sabendo que não terei resposta, mesmo sabendo que a encarnação é algo além do possível e não acredito) – quem é? Quem é que bate à minha porta e não entra? Quem é que me estonteia e vai embora deixando rastros de perfume e idéias? Quem é a criação e o divino calcário da minha mente desolada amaldiçoadamente figurativa? És tu, bendita, tão amada, esperada, és TU que me és?

   E eu ainda assim, espero. No anoitecer, no enluarar, encobrir, amanhecer, enlouquecer das minhas cabeças, dos meus corações e escarros; dos meus vômitos, estômagos, ossos, veias, vastos e estragos. Nesse todo e contínuo embriagar de não saber além de quem, além nem de mim, além “dos dois”, aqueles dois. Osso gira. Manivela, maquiavélica sensação na sala de estar e o tempo barulho, tilintar penoso e apesar do porém e do pólen e do mel: - estou a esperar.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Solitário num bater de asas

   Boa safra e envolta de vapores minha cabeça entardece, chego de boca quase muda; ouvidos estonteados, nevoeiro enluarado e céu todo de mar: lúcida! Luxúria no pensamento debaixo de litros d’água e luzes que piscam sem parar um instante sequer.

   Ainda estou na mesma posição de sempre, frente à janela, observando a fotografia, agora, já, prestes a se soltar da parede por conta própria: O pássaro. Analisando as ranhuras e rachaduras que se estendem ao longo das paredes e se encontram sem que eu perceba e sem o meu consentimento; e mesmo ao meu sinal tudo desaparece, passo levemente a mão em cima do interruptor de luz; - eis a escuridão.

   Exprimo a vida de maneira voraz e rápida; perspicaz. Num segundo meu coração pára de bater e no outro ele já bate enjaulado na garganta e sou uma criança que não controla seus atos: vejo meu reflexo no espelho e observo a garganta pulsante, sou semi-deus, sou quase tudo e dou um passo além do mundo. Ávida, generosa nas palavras, violenta nos gestos e secreta nos sentimentos: coração trancafiado. Todas as minhas tempestades junto às paixões, o sincero ruído que os dedos fazem e o perturbo-vacilo que a mente proporciona nos momentos de rapidez e subordinação ao sentido, amargo.

   Descolai-me do início, onde ainda não pensei em pensar a voar e não bati as asas; olho para o teto enfumaçado e lá está: ele por si só, descolando-se da “pátria-mãe-gentil”... nauseai a minha, porquê preciso do gosto da vida e que seja ao menos agridoce.

   Estendo assim, pouco nos pensamentos disformes da solidão, curtas divagações das lembranças cristalinas, porém gelatinosas do início de um pranto que estende ao longo dos séculos e antigüidades marcadas no corpo e nas bordas dos copos em que bebo: boa safra. Ensurdeço no banho quente, as centenas de gotas d’água caindo ao mesmo tempo sobre a minha cabeça como a tempestade de um fim que perdura. Perdurará?!

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Acutu

   Desrespeito latente; tudo o que vagueia indolente sobre o copo, lábio, dentes amargos. Subtraindo, colecionando, friccionando sensações seletas da mente desgastada e amaldiçoada que pulsa como num amanhecer frio e esbranquiçado no norte.

   Des-norte em que encontram-se todos eles; pensamentos amenos da casa vazia, do tudo escuro e esquecido lá fora quando todos se vão. Recolho os gatos abandonados do parque, pequeninos nós nos fios de cabelo, danças secretas e tímidas entre os passos rápidos ao som de coisas antigas como trilha-sonora; vou caminho a fora, caminho adentro, segredo e entremeio.

   Todavia e por dentro, sempre por dentro rasgo alguma coisa e arranco e então cuspo, logo pela manhã; às vezes não dá tempo de correr até ao banheiro, o cuspe vai direto ao chão... ou dependendo da voracidade, porque sempre pode ser um novo coração, direto à parede e explode: como hoje, agora. E sempre e então, e cheio de “e” vou seguindo até onde der, até onde doer e suportar e tiver esmaltes para retirar ou unha para roer.

   − Esperança, esperançosa, sagrada-lágrima! Quero um aguilhão!

   Voltemos às casas, aos silêncios agudos, ao adeus, à boca, aos corpos e copos cheios, à embriaguez; sou lúcida a maior parte do tempo, falando sobre embriaguez, agindo embriagada, falando e cuspindo, berrando e agindo, amando e... amando... e às vezes sonho com silêncios-solitudinosos-agudos, porém, apaziguados. Sonho com o adeus e a volta e os copos cheios, mas os corpos em cima e o torpor, ah! O torpor... agindo lentamente em meus laços, viscosos e sanguíneos como remetentes de felicidadezinhas amenas e luzes... faz mal, ter um estímulo, - que gosto de nomear aguilhão?

   Misteriosamente faço perguntas sem respostas, desconexas da realidade; casa vazia de madrugada, casa cheia de manhã enquanto durmo. Casa vazia à tarde, casa cheia de noite. Volto na fricção dos pensamentos, no fluxo da consciência que é a constância, não entro nos detalhes: detalhes.

   Gritos, sussurros, vento: despenteia os cabelos. E o frio que entra pelos pontos minúsculos do meu pijama de lã. Suporto porque há resistência e tudo isto ganhei ao deixar de desejar.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Esquecimento oco antes do sono

   Quanto vale o impagável-impecável-virtuoso? Estou quase só, atrás de mim, atrás da cama, sobre a outra cama o que pesa é um tapume sólido e, pelo cheiro, constato, ser amargo.

   Desespero calo nessas madrugadas em que não me acordam, em que não me choro, em que me calo e o sono profundo me vem junto à dor de não ter de esperar nada, não ser nada e continuar em pétalas a esquecer.

   Nunca acordo de pólen e suores. Sou despertada por um breve momento entre a realidade e o momento da minha passagem pelo portal dos arbustos secretos dos meus desejos nos sonhos e os movimentos bruscos que fazem pela casa e nas casas dos andares de cima e de cima. Logo, e cegamente, e tateando, encontro o maço de cigarros e acendo um. Trago firme a fumaça, trago firme tudo, até a esperança, até o rancoroso-amor-desperdiçado, eu sei, nestes momentos – de tragadas firmes – que estou vivendo e que estou sendo única.

   Penso um pouco nos fios, nos teares, nos buracos dos crânios que as pessoas possuem e não sabem; penso na existência excêntrica das ligações invisíveis e depois, bem depois... me chega o sono novamente, e junto dele o niilismo, bem devagar, dando um soco bem no meu estômago. E assim, ajeito os travesseiros novamente, na posição que me é confortável para dormir.

   Sono! Sei que estou dormindo e não para sonhar; mas sonho com vozes, sorrisos, abraços, sonho sempre com o abstrato, com tudo o que sou:
Dou grandes passos no infinito, flutuando e às vezes batendo contra as coisas, diante das coisas. Olho do alto as garrafas, as flores miúdas, os galhos, todos eles, retorcidos, mortos, embriagados de sonolência virtuosa e vazio oco.
Abraço firme a minha parte desprendida da fotografia, tento colar, segurar. Prender de alguma maneira e sem querer ofereço mundos além, e um chão totalmente inexistente; uma conversa e um afago. Não quero me afastar, nem no sonho.

   Acordo novamente e estupefata e os olhos se abrem numa rapidez sem descrição e ficam enormes, arregalados. Porque é que tive a certeza do vazio, e a certeza de perder e a certeza de não ganhar? Levanto-me cuidadosamente, não gosto de desorganizar as cobertas, estou calçando meias e vou andando um pouco ou muito sonolenta até a cozinha... às vezes escorrego, quase caio, o chão está assim, escorregadio e gelado. Pego um copo de água e um comprimido calmante porque tenho a certeza de não estar boa hoje. Porque é que numa só noite tenho tantas certezas? Bebo toda a água, coloco o copo na pia e volto, pelo mesmo caminho, escorregando do mesmo jeito, sentindo mais frio, andando um pouco mais rápido.

   Chego até meu quarto, com tudo o que é meu e tudo o que há de oco. Me enfio debaixo de todas as cobertas e uma lágrima me escorre e sem saber, penso que deve ser por ter tantas e tantas certezas hoje, que não é hoje e também não é amanhã: é agora e é neutro, absoluto.

sábado, 10 de maio de 2008

Um galo no crepúsculo errado

   Tenho carências. Tenho urgências. Tenho temperanças; todas essas unilaterais, pois, e por tudo e por si só, ninguém nunca entenderá. E jamais, e porquê, por mim, pelo céu, por que tal entenderiam se não há palavras, se não há tom nem gestos que às explicitam?

   Lanço-me sempre contra um chumaço de idéias e plumas de ganso. Lembro com uma quase-lágrima da frase que eu resmungava para dormir: “Os galos cantam no crepúsculo dormente...” – de um poema da Cecília Meireles. E ainda o resmungo, mas agora quase sem som, quase sem os lábios. Fico no pensamento: que é melhor, mais puro, ou não. Mas é melhor, ninguém ouve, ninguém diz. Não há alguém lá e nem aqui.

   Fico, - talvez porque eu queira, nessas madrugadas de final de semana -, solitária no meu quarto e tudo o que vejo são garrafas, galhos retorcidos, flores de papel, e poucas cores. Tudo aqui soa minimalista e junto de tudo eu, com meu copo de chá-mate com leite morno e um cigarro para me acompanhar na jornada inútil de ter que sobreviver no deleito que vem antes do pranto.

   Daqui a pouco o galo da casa vizinha cantará, acho o fuso-horário dele muito estranho. Não são nem uma hora da manhã. Mas ele canta mais ou menos nesse horário... e então o crepúsculo terá um galo que cantará de verdade. Digo, “crepúsculo”, naquele sentido figuradíssimo de decadência. O galo cantará, a minha dormência enfim chegará e quase tudo está no lugar.
A cama, o chão, os móveis, os adornos, a rua, os postes, o gatinho do lado da garrafa, o aparelho telefônico que nunca toca, a televisão no mudo. E tudo mais; menos eu, na cama, porque estou aqui, frente à janela, pensando no galo, no crepúsculo, na temperança e nas minhas coisas unilaterais.

sábado, 3 de maio de 2008

Feche os olhos e confie em mim

   Não mais o frio, mas chove. Penso, repenso, tenho memória, tenho telefonemas e falas. Sinto a situação pendente; pego o maço de cigarros, puxo e acendo um. Trago com o máximo de força; Trago-o com o máximo de força para perto de mim. E sou vil. Sempre que posso sou vil; porquê com você é assim que tem de ser: vil.

   Chove forte, pedregulhos no teto todo meu, talvez. E você deve estar na rua, pedregulhos na tua cabeça, Amém. Penso nas piadas que ouço e não presto atenção e em todos os “nãos” que ouvi em 72 horas. Soa-me muito, muitos “nãos” em poucas horas. Mas o que se pode fazer? Pisam em meus castelos e nem estou na praia; faço confidências nuas enquanto estou vestida. Preciso conversar e no fundo tudo o que quero é um resgate, um fio de memória que vá se puxando e puxando e enfim: aí está, o meu novelo velho de lã cinza-esverdeada.

   Porém, apesar de tudo e apesar dos questionamentos, haverá um dia em que não me verás mais chorar em sua frente, – tão amargurada, tão humilhada, perguntando se jogas alguma coisa em minha cara – porque estaremos distantes: estarás cuspido (como me cuspis-te) ou morto (como me matas-te) ou então até distante, como propôs, com toda a ignorância e prepotência a ausência, infame.

   E quem me dará rosas? Logo eu que odeio rosas!
Quem me dará uma única rosa de latão com um gancho? E uma caixa, e um livro, e mais outro livro e a idéia de um curta-metragem e muitos, muitos cappuccinos italianos ou não? Ninguém me dará a amizade e o banco do passageiro, em que eu fico calada ouvindo, ou em que falo qualquer besteira e não sôo nada interessante.


   Haverá a morte, tão falada, tão anunciada, já que escolheste. E de todas as outras oportunidades, e de todas as outras qualidades e desqualificações e defeitos, foste ficar, e fincar logo nos meus defeitos, tão gloriosos que me sustentam, e sustentam-nos nos atos ilícitos, cometidos sem vergonha e sem medidas. E mais depois ainda, daqui a dez anos, eu o reconhecerei?
Acharei-lhe estranho como lhe achei à primeira vista? Será que eu vou engordar como algumas pessoas do seu passado engordaram? Ou será que quem engordará é você?

   Mas sou forte; suponho. Agüentarei as pontas, sempre agüentei. Alguns cospem, outros mastigam, mas eu engulo, sempre; mesmo que alguma – qualquer – lágrima escorra.

   Pouco tenho medo das tragédias. Pouco tenho medo dos desencontros e atrasos. O que não gosto mesmo é do descaso, do desnecessário, desrespeito-amargurado. E foste logo comigo, que ia com você aonde quer que fosse.


● A alguém decididamente (não por mim) especial

    – Lorota! Balela. Quero alguma coisa que marque. Mútuo, que não tenha prazo nem validade, nem empecilhos, muito menos vaidades. Não quero tempos, nem relógios. Nem tic-tacs, nem a quem chamar quando estiver, assim, como digo, mutuamente-marcada (o que é eterno). Vou até a montanha e enquanto dormes escrevo pois não tenho o que fazer, você não está aqui para eu dizer; e dizer o quê?
Tudo o que já disse antes, e voltar na mesma história de antes, seguindo a linha desde o começo, que parece interminável e o fim que parece não existir. E dizer que tem de ser assim, porquê vai ser assim e não é porquê quero, é porquê vai ser. E é estranho. Sou normal. Mas é estranho.

   Não, e não. Não mesmo. Você não quero que morra. Nem quero que me mate. Nem quero te cuspir e muito menos que me cuspa. Não quero a ausência batendo em nossas “portas” excêntricas com chaves e fechaduras invertidas, transmutadas.

   Porque senão, e senão...

   A quem comprarei coisas bonitas, em par? A quem direi o que vi, e fotografei, o que filmei para mostrar quando encontrar, e os filmes, e os livros, e os versos e as fotografias... e o amontoado de idéias que preciso, sempre precisei compartilhar. A quem vou pedir que me aceite com defeitos e qualidades, e a quem vou querer o impossível, o incrível das duas maneiras possíveis que penso, o mágico, o irrealizável que realizarei... a quem?

   De quem vou querer ficar perto e só perto, sem falar (e perto de quase mais ninguém)... e dizer que é a pessoa mais linda que já “vi” na vida? Não há quem. Não há alguém. Ninguém.