sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Cena erótica – sobre divãs

       Sento. Levanto: morro de véspera. Agudo! Inusitado permeia as idas e vindas do dedilhar nas teclas disso ou daquilo que conduzo com pouca destreza. Mordisco o lábio inferior. Um suspiro! Puxo um cigarro do maço nem cheio nem vazio, acendo rápido e trêmula. Trago forte, direto aos pulmões: a todo vapor, a todo vapor, vapor, vapor?!... já não sei.

       É vasto, contudo, continuo minha cantiga, toda a minha esperança que conduzo num pacto comigo mesma. Levanto, sento, estremeço inteira, já sou um gatuno de olhos cintilantes observando as erupções de um intelecto-vazio e de uma mente quase que completamente sã. Confesso tudo, pois estou na hora do desenrolar, desenrolar-me de cobertores, fios recobertos por camadas e camadas de espécie de algo superior a ouro e santidade além de qualquer santo: minha antítese da nudez e o divã.

       Conto sete passos, falo sobre todas as coisas, e ao certo não sei sobre o que digo. Era manhã, e eu sentava, levantava, fumava, mordia o lábio, roia a unha do dedo mindinho, escrevia, mordia a caneta que usava para rabiscar os erros que eu mesma produzia enquanto redigia pensamentos desconexos de mim ao laptop anos 20. E agora é à tarde e estou aqui; com a folha amassada entre as mãos, deitada contidamente, olhando a sala limpa, arejada, repleta de muitos livros e poucas estantes: livros que servem de bancos, bancos que servem de livros e vice-versa. E uma parede em especial me prende a atenção, não se usam mais papel de parede, mas aqui tem e é beige, com ornamentos sutis em verde claro, um verde que se mistura com o beige, sem deixar de ser verde claro, embora eu não saiba identificar bem, ou explicar exatamente o tom de verde, talvez um musgo bem, bem clarinho e suave. Nessa sala tudo é suave...

       Livros muito antigos. E os passos Dele são lentos e sua voz é mansa, tão mansa que quase me conduz a um sono leve. O chão é branquíssimo, e tem uma enorme janela, que se faz passar por parede, com uma cortina de voil indiano branco, que eu poderia descrever como insignificante se não fosse tão bonita! Fecho os olhos, sempre fecho os olhos porque, bem, tenho de me concentrar nas minhas palavras, tenho de não olhar para os olhos azuis por detrás das lentes dos óculos Dele e tenho de também não prestar atenção na sua boca silabando as palavras que eu quero ou não ouvir. Ele me indaga sobre porque não correspondo pessoas que não compartilham os mesmos sentimentos que os meus; isto de modo geral, sentimentos como um todo. E eu não consigo explicar, esquivo-me de tudo, sempre, do mundo, esquivo-me de grande parte dos acontecimentos, mas continuo vivendo, e desta vez, comigo ao divã, vermelho-sangue, e ele sentado à poltrona, vermelho-sangue também. Olhamo-nos friamente, neste instante que esquivo-me da indagação que não foi necessariamente uma pergunta.

       Ele é um sujeito pacato, sensato e inteligente. Acha que sou uma artista, uma escritora; duas vezes por semana se põe a ler calmamente e criticamente tudo o que produzo, embora, eu, timidamente não goste de lhe mostrar minhas produções. Ando adversa, ando sem andar, compenetrada no meu eu e analisando os demais; grande parte disto devo a ele, nesta convivência sem defasagens e com uma margem de erros mínima. Levanto-me, olho os livros calmamente até chegar à janela e lá fora parece tudo tão calmo e é por que não ouço ruídos, barulhos, buzinas. Volto ao divã. E no exato momento em que me sento, lembro-me de uma conversa intensa, porém breve:

              Ella: Quando você vier, aonde prefere?

              Sabina: Prefere o quê?

              Ella: Fazer sexo comigo!

              Sabina: Tenho tantas opções assim? Sua cama é de casal?

              Ella: Gosto de fazer sexo na banheira... minha cama é de solteiro.

              Sabina: Nunca transei na banheira, mas parece interessante!

              Ella: Já sei pra onde te levo. Você vai comigo ao Divã; vai ser sempre no Divã!!!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Segredos para Lottie

       Se o tempo parasse, para então eu juntar todas essas coisas perdidas nos pântanos, a vida seria melhor, Lottie. Tronco luxurioso. E os meus olhos se enchem de lágrimas, e as minhas lágrimas se enchem de alguma coisa secreta, que vem do delta no seu paradoxo venusiano e inatingível; tornei-me incansável nas investidas de olhares avessos e retóricos. Pois sou eu quem se cala sempre e quem se despede sem um aceno, vou indo de leve, de mansinho, deslizando no infinito, como se a mim fosse tudo confidenciado: o prelúdio do fim.

       Tiraram-me as mãos dos antebraços, tiraram-me os braços dos ombros e as pernas para que não eu possa chegar até a ti. Tenho olhos culminantes e até o mais distante e grave deslize consigo gravar na retina, fotografar por detrás dos cofres encharcados de sal e água quente. Vim do mar porque não tive outra escolha, e por isso meus olhos são cristalinos, moles e líquidos.

       Coro as bochechas, a face nua inteira. Vejo-lhe sem saber exatamente o que és. Sigo a estradinha que me leva até o caminho do encantamento, até o portão aberto e depois a casa toda sem móveis e as janelas abertas, redemoinho de poeira e cabelos louros subindo, subindo, dançando no meio da sala de jantar. E aqui sou o som de tudo em volta, sou os passos, e sou a mobília e sou os convidados e sou a própria comida. Faço-lhe o favor de me calar.

       Ando percebendo – sem andar – aqui mesmo, bem como o mundo é... petit Lottie, a vida traga-me num desajeito tão grande, num desgosto imenso e eu, enquanto só eu; quero remendar tudo, sair costurando as nuvens, os grandes buracos acinzentados que percebo quando olho para o céu nesses dias de setembro. Embora toda a chuva e ventania e toda a eletricidade pairando no ar me cause um êxtase e felicidade enorme, sinto vontade de sair remendando tudo, deixando as coisas como deveriam ser, ou todas brancas, como se o céu fosse todo de algodão ou todo azul, profundo e tácito.

       Mas não, eu não seria capaz, sei que há a volatilidade. E também sei que as coisas giram, e por tudo isto, desisto. Mas não morro. Continuo, e não disse quase nada, fico atrás do pensamento. Falo no destrambelho a mim mesma, porque contudo há o que sobra, palavras perdidas nas entranhas, grudadas na mucosa, na relva, nas plantas selváticas perdidas por entre os dedos de Lottie, que me espera, adormecida na cama enquanto penso que ela me ouve.

       Falo e falo sobre o dia, sobre a brisa da manhã, sobre a volta, o porvir e o amanhã. Mas, não, Lottie é só uma menina e já está dormindo há pelo menos uma hora num sono profundo, mas leve, leve... a mãozinha encostada no rosto, mechas louras perdidas por todo o travesseiro e o corpo todo desprendido do resto, como se flutuasse no ar, mesmo em cima da cama, atrás de mim. E eu, uma egoísta, tenho vontade de acordá-la, sacudi-la e contar tudo sobre o mundo, sobre todo mundo e lhe dizer que, apesar de, há esperança e “apesar de, se deve amar”.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Ecos

       Não só eu gargalho; não só eu, prolixamente gar-ga-lho. Há!Há!Há! Essas coisas todas impermeáveis vindas de outros séculos, ressonando no tempo de todos os instantes. Olho fixamente para o lado de fora, pela janela porque não quero perceber, aperceber-me olhando-a e só quero ouvir e até nunca mais.

       Eis o reflexo: bestificada e atenta, sou eu quem acena à medida que o tempo urra, sou eu quem tem medo dos autos, das coisas, dos falantes, das ações e do lado de fora. Pois eis que há a ascensão contra a demência e eu estou sentada nessa poltrona, encolhida no mísero canto que permito-me, no canto de cá e por nós: sou tu-eu, eu-nós, és-tudo. Enquanto tudo girar e eu encontrar o fecho ou seria desfecho? Quero calar esse fluxo, coisa destrambelhada que espalha de acordo com a altura do meu pulso, a palpitação dum coração que no descompasso se contorce inteiro porque ainda há vida e há de se viver.

       E se tudo há é por que não só eu sou assim e equivalem-me em se deixar. Ela de repente sorri, e de repente fecha os olhos enquanto sorri e depois está gargalhando e depois não tem mais fim e eu estou acompanhando, mas como em câmera lenta, como se o mundo – nesta altura – já girasse bem, bem devagar, num sentido primordial para que tudo acontecesse em perfeita simetria e felicidade. Deve ser essa tal ressonância, essa tal impermeabilidade que não deixa infiltrar respingos de outros lugares, outras coisas que não seja o som secular que ainda ouço repetir...

       E logo desdobrar-me-ei em festim, confete e serpentina. Serei esse tal carnaval que só ouço falar, serei ainda mais que a minha gargalhada inconfundível ao entrar em qualquer lugar ou ao sair. Deixar essa marca na volatilidade do espaço me é algo sensual e tentador, eco da repetição, colagem da palavra, do som sem entendimento, signo, cercles, e não estarei mais a ser acompanhante e mera observadora: serei o que circula. Tudo em volta.

domingo, 28 de setembro de 2008

O divã

       Frases complacentes permeiam minha mucosa. Rodopio na inexatidão de um segundo enquanto respiro e... silêncio: espero o tácito prazer da certeza, fecho os olhos, enquanto reproduzo sons de outros continentes, tant pis, tant pis. Estes, quebrados em pequenos acordes inundam a sala, minha coisa saindo da boca e dizendo tudo o que deveras sinto, sou eu e nada mais.

       Limito-me em ser. Sento-me na poltrona em frente ao divã enquanto o Sr. Invisível limita-se em queixar-se sobre o que deveria sentir. Sinto as dele palavras titubeando na atmosfera, sei que sua fala é quase primitiva, no sentido de não conhecer o que se diz e ouvir somente o que digo, como: circunstâncias, limitar-se, porquê, talvez... (...). Meu pensamento desloca-se no ápice desse tempo inexistente e transmuto-me novamente para trás; quando falava antes sobre eu: rogo a quem toda essa aprendizagem forçada, no deleito obscuro da solidão enquanto sempre vivi sem perceber?

       É o vento soprando, forte, estridente, os papeis querendo levantar vôo, as cinzas formando um pequeno redemoinho e eu aqui; olhando tudo de camarote enquanto penso sobre o que há e sobre todo o resto que não deve existir porque não conheço, ainda não conheci. Preciso respirar, abrir paredes, expandir-me na medida em que os minutos passam e as linhas das páginas são preenchidas de idéias que eu mesma não consigo compreender bem. Ainda, porque ainda ouço o Sr. Invisível falando e falando, agora, sobre o que não sente e como tudo isto incomoda-o.

       E os sonhos são leves, e breves como espuma. Ele é uma dessas pessoas que não percebem ou não aceitam a mágica do porvir, do completar ou talvez: completar-se. Digo a ele que, quando tudo é breve, leve e frágil... devemos então, em vida novamente, completar, do jeito que nos cabe, como nós nos permitirmos. Sr. Invisível me reprime com um olhar fulminante de repulsa e se cala. Então me calo também. Silêncio é tão acolhedor quando não se têm verdadeira vontade para conversar e é tão verdadeiramente sombrio quando se quer falar e tudo é inapropriado e monstruosamente calado demais.

       Meus ossos parecem se fragilizar de acordo com que o tempo passa, sinto o meu corpo querendo ir para algum lado e não tendo saída, os ossos são comprimidos, estilhaçando-se, esfarinhando pouco a pouco e logo estarei rastejante ou enfim livre e elástica. Expandindo e retraindo conforme a condição dos nervos, do mundo e de todo o silêncio, apaziguado ou não por verdades, mentiras ou situações em que tudo pede um só grito.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Bliss

   Ela toca os lábios docilmente. Cerra os dentes, olha o homem que está de pé a sua frente; tira as mechas de cabelo da boca e coloca atrás da orelha. Cabelos ruivos, brilhosos e lisos. O homem sorri e lhe segura à mão, assegurando-lhe estar tudo certo. Estou olhando e observando meticulosamente tudo de camarote, no banco bem em frente enquanto tudo chacoalha. Luzes, sombras, mais luzes e os rostos dos dois às vezes se aproximam de mais, sinto o bliss, quase que em mim e seguro-me por dentro porque é como se a minha barriga sentisse frio, e não a deles. Ele fala sem parar enquanto a engole com os olhos puro e ternamente, como numa frieza automática, ela desvia os olhos e sorri mecanicamente.

   Sempre não posso ouvir sobre o que conversam, ouço música e se não ouvisse uma bobice me dominaria por completo, ou achá-los-ia tolos e apaixonados demais com assuntos demasiadamente ridículos ou a ironia de observá-los tão cruelmente me atormentaria e eu não conseguiria mais; a tola seria eu, a errante, que além de olhar, ainda ouve demais. Prefiro escolher um dos sentidos e agarrar-me então a ele e não soltar, nunca mais:

   As palavras se envolvem, enovelam-se, umas nas outras, da boca de um da boca do outro. De um ponto para o outro. E atropelam-se, percebo que se desajeitam quando falam. Às vezes falam na mesma hora, e logo após um silêncio horroroso de alguns segundos toma conta de tudo. E o outro resolve romper essa barreira novamente e de novo e de novo; espio com olhar de anciã, reprovando ou aprovando as aproximações.

   Tudo parece passear tacitamente entre eles, mesmo entre enxurrada de palavras e gestos quase secretos e brilhantes olhares; o homem parece perceber a suavidade que paira no ar enquanto a mulher sorri, – ela está sempre com um singelo sorriso – e se aproxima de infantil e nua: tasca-lhe um beijo na boca, desses rápidos. Ela, ela retribui e o olha com franqueza... bliss, felicidade, arrepio. E eu também sorrio, retribuo com sabe-se lá qual olhar.

   De movimentos esculpidos nos segundos, interstícios de tempos remotos e maremotos de torpores e odores de frenesi que saem dos poros sem que percebamos faz-se a paixão desligada do tato, fato, história, consumo e horror. Apenas o aprisionamento na retina: pequenas lembranças de imagens, todas estas, coladas uma após a outra, série de movimentos, fricção de rostos, gestos, formando cores, sensações subumanas, - e dá-se então, tudo o que não se sabe, têm-se o que não pode, o incapaz, inconcebível, a construção do inamovível:

   Estatelado no banco, eis-me a olhar. Eu sou, tu és. E não preciso de mais. Respiro inteiro!

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Sobra o esvaziamento, vazio

   Percorro todos os ventos porque esses percorrem entre mim e tudo o que há. Dentre todas as coisas o que posso alcançar é o inalcançável e vou levando; percorrendo mínimos detalhes entre o chão e o ar. Estopim maldito que me alavanca e uma perna de cada vez, e uma na frente da outra e um gesto sensível e uma palavra assim, saindo pela boca sem que eu saiba: tudo acontece pelas madrugadas sinceras enquanto não sei viver e não percebo morrer.

   A música saindo de algum canto do quarto, passando pelas paredes, chegando aos ouvidos daquela que dança à voz da língua estrangeira que se conhece e se beija para que se absorva inteira e não se passe em branco nenhuma falha ou ruptura de entendimento; talvez este seja o método repentino e universal dos que engolem amor, e não podem, em hipótese alguma, perder um milésimo sequer de tudo isso que se respira, aspira e guarda: nos cofres.

   Aprendi, miticamente a acreditar no divino de todas essas coisas que transmutam entre os corpos alçados nos topos, torpores, e arranha-céus. E de maneira mais sã, e ainda assim crua, vivo discernindo o que é realmente cru de mim e o que é que agreguei dessa maneira tão rápida, porém, não efêmera: és amor segredado e puramente quente. Amor de línguas e fitas que saem pelo estômago, pela ponta dos mamilos e dedos que falam, falo-te assim: vou-te ao encontro, no cheiro, junto ao vento, transmitindo mensagens criptografadas – do meu jeito ensandecido e retórico, eu e tu entendemo-nos de maneira desentendida e falamos por códigos, meu oculto não veio das convenções formais, de grandes e grandes, doutrens. Somente dois, que somos nós – que correm a mil quilômetros por hora e por agora tudo basta!

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Fluxu (aeternu)

 

   Disseram-me que “eterno” soa na cabeça depois que disse sobre eterno: ocorreu-me agora que as pessoas são em síntese, eternas, pois, não se conhece o princípio, não se conhece por inteiro e, nem nós mesmos, não nos damos. Não nos deixamos por inteiro, não somos o princípio das coisas, só o começo dos instantes que logo se esfumaça e não se apercebem e não se seguram entre as mãos. Conhece-se o agora, e esse é sem princípio e sem fim, começa sem que se perceba e acaba como um movimento involuntário, quase que como todas as vezes que os olhos piscam por minuto ou o coração bate: eis o eterno das pessoas e o horror de tê-las. Conhece e quer se comer de imediato, mas sabe não poder, sabe não ter tamanho o suficiente; eu não tenho. Meus pesadelos começam aí, onde perco-me em difusas controvérsias sobre o que é poder. Tenho saudade e tenho fome, tenho horror e a paixão que me domina e, no entanto, não posso. Nunca pude. Não me cabem e eu não caibo, a eternidade paira entre a pequena ponte invisível entre eu e a vontade, segue assim: agora não me é preterível, o desejo de sugar inteiro o que se percebe com os olhos, o que quer-se para si absorver do outro, o momento, cada instante que sabe que vai ocorrer e depois não percebe que já aconteceu, a sombra do que não tem princípio fica aí, nesse deslize das sensações que vão sendo atropeladas, uma a uma, pela vontade imensa de se querer cada vez mais e mais a proximidade e a doçura que se sente, agora-já, em toda a língua e sem tocar. Um tracejado, ponte de hidrogênio entre essas duas coisas, pontilhado intenso que não se rompe, e justamente, será por não se tocar? Tudo suspenso no ar.

   Será que devo por mim e por vós explicar o sem fim? Pressupondo que conheces o fim das coisas e todas as coisas, devo explicar o sem fim que é isto que faço ao vir aqui e esvaziar? Sempre tive medo do que não tem fim, uma hora dessas vou ter que parar e calar tudo isso, eu sei. Quando me perguntaste sobre o que não tem princípio, pensei também e achei tão bonito, mas quando penso no que não tem fim: será que eu também não tenho fim ou quando eu tiver fim, qual vai ser o meu fim? Porque desconheço tudo e o medo é algo paralisante. Meu cérebro agora entra numa letargia, já não quero pensar no fim ou no que não tem fim, é que ao mesmo tempo que gosto do fim, quero que algumas coisas não tenham fim e se tiverem, prefiro eu ter fim antes. Mas não adianta, já está na minha frente todo esse pensamento e eu só corro para me alcançar e não desgrudar. Tenho que pensar e fazer um grande esforço. Sacrifico-me todos os dias, em todos os minutos e milésimos de segundo.

Continua...

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Fluxu

   Silêncio: prédios desabam em mim. Enquanto por fora tudo é tácito e paixão. Flamejante bandeira da sensação por detrás de tudo aquilo que sinto, secretamente, atrás, bem atrás do que posso sentir: pressinto. Canso-me de tudo, dos ossos e orifícios, sou anil enquanto olho para baixo e choro num piscar de sanidade; meu limiar de distinguir as coisas minhas das coisas tuas. A igualização foi algo que aprendi e tomei, secretamente para mim, sem saber que tomava, e tomei, tomei sem saber que engolia como comprimidos, oito ao dia e mais esses, que não sei quantos são e quantos se somam a mim. Se somam. Ódio da benevolência: estou consciente do que digo e inconsciente do tudo que sinto, mal estar das inexatidões quase que por si só exatas e eu não sei mais.

   Disse-lhe que sentia, e eu sinto. Choro destrambelho, porque sinto demais e não explico e é por que não consigo. Fiz sinal de silêncio intuitivamente ao fim da frase, não deveria tê-la dito, ao fim, percebo que as coisas ficam suspensas, quase que imediatamente suspensas quando eu termino: plainam no ar, feito poeira quando uma fresta de sol bate na escuridão parcial e dá-se as mínimas partículas, que seriam imperceptíveis, - se não fosse o sol – e assim são as minhas estreitas e toscas palavras... todas suspensas, plainando, ofuscadas mas às vezes brilhantes... até que se chocam no chão, de uma vez e não se têm mais notícias, não se apercebe e nem se pode tocar com os dedos, cristal de mar, secreto de mim e por vós.

   Acometer-se seria tudo isso que choco aqui diante de mim mesma? Cenas do meu final-começo. Nasço entre as palavras e me choco entre as grandes crostas no mar; sou livre para morrer, quero. Quero querer e quero frasear a minha morte-vida entre as palavras e o meu grande choque de tudo nas entrelinhas do mundo: respiro, bate, pulsa, pula, germina, oco, vazio, nada... estrelas, constelações, meu osso do calcanhar roído e qualquer dia vou além, do ponto, da margem, da igualdade e pulo. Olho para o lado e só agora, juro, percebo ser noite, e é noite, e sou de verdade: estômago dolorido, cigarro preso entre os dedos, infância, olhos, pernas e meias. Tenho a sombra e a mulher, tenho o mundo e pés e, no entanto não consigo andar porque quero ficar aqui, espero o tempo passar e espero você ficar, porque escrevo na minha loucura, soprando cinzas e esperando o tempo parar de girar... começo no fundo de tudo do que digo a me perder se não prestar muita atenção na palavra anterior, mas não quero prestar, porque só escrevo para me libertar, para te libertar de mim mesma, dou um sopro novamente, uma gargalhada de antemão, pois sei, sei o que virá e prefiro gargalhar antes. E mais no fundo ainda começo a duvidar da perspicácia da invenção: será que foste inventada?

   Vejo reflexo e sorri. Olho para mim e pergunto-me também: acabou? E é só isso e fim? E eu queria que fosse mesmo assim e sempre assim: eis o fim! Mas não é, sigo o que há em mim e não se cala, emana algo que esvai e é eterno, eu ainda não sei se gosto de coisas eternas, mas sei que isso não se cala nunca, como os dedos que trabalham para sempre seguindo ordem de não sei bem o que, se um pensamento, se um atrás, se uma simples ordem do cérebro ou sabe-se-lá-o-quê. Obedeço a ordens e essas são minhas. Secretamente minhas e segredadas. Às vezes sôo fictícia demais, mas não sou. Tudo é verdade, mas não posso provar porque meu pensamento é ilógico e eu sou toda ao avesso. Entenda-me ao captar-me no instante que se segue: aço estica e estremece a cabeça sã, porém, ligada à loucura de maneira imediata. O homem fecha os olhos enquanto a mulher sorri. Estou espiando, com centenas de volatilidades de pensamentos algumas dúzias de hóstias na mão; espírito nu e corpo trêmulo. Engulo todas, em sonho. Porque na realidade eu não poderia comungar, é pecado, mas comungo por ser pecado, na tentativa de que um padre me reconheça na fila como pecadora e me excomungue, mas bem sei que isso nunca acontecerá: continuo me redimindo aos olhos de Deus. O homem abre os olhos e a mulher para de sorrir, tocam-se pitorescamente, quase sem se tocar e se afastam: sentem-se tão iguais que não precisam de muito, escolheram-se e se são. Mútuos e magníficos em sua grandeza de que existem um para o outro e nada os tira de tudo isso: amém. E eu flutuo na extremidade da pele dos dois, sem que percebam e sem os tocar, sou-lhes porque os criei e me são, enquanto tudo pode esperar.

(Eterno não tem princípio nem fim, isto me basta! Parece suficientemente bom para eu ter a certeza de gostar, gosto. Tenho dúvidas quanto às coisas, e palavras, e pessoas que me cercam, mas por via das dúvidas e dívidas, se elas forem eternas, sem princípios e fins, tornam-se adoravelmente desconhecidas e deliciosas de se ter.)

Continua...

domingo, 10 de agosto de 2008

Fluxu

   Tocam A bola com as mãos, ouço o estrondo alto de leve nos ouvidos. Calor; suponho, na minha infância, enquanto morria ao fundo, tristeza amena de menina e a mulher que chegava ou partia. Mormaço calado, suor na testa e nas testas que às vezes se tocam, tocavam-se. Davam-se as mãos e de mãos dadas às vezes íamos até as esquinas altas e altos íamos até não sei onde, éramos. Percorríamos longos caminhos e chegávamos num ponto onde nada mais nos atingia. Estávamos calados, cansados, entrelaçados, escolhemo-nos, mutuamente, simultaneamente: existimos. E agora olho de longe, pela janela, o céu: rastro de fumaça que qualquer teco-teco deixou ou esquadrão da fumaça, riscos lindos no anil e fotografo. Balançar levíssimo de folhas nas árvores, só sei qual é uma: mangueira. Rajadas intermináveis de coisa branca que sei que é fumaça, mas bem poderia ser nuvem em forma e força excêntrica e amém: coisa divina! Bem dizer, a vida é magnífica, e tenho sede de tudo. Alcanço com as mãos porque não sou tudo e o algo a mais alcanço com os olhos e sendo tudo impermeabilizo na retina e guardo atrás: é tudo.

   Escrevo com dicas secretas para não esquecer. E dou sempre coisas secretas para não esquecer. Essa é a base do meu fundamento; e no entanto mal sei qual é este fundamento que me incumbiram e não sei quem. Escrevo no destrambelho e falo ameno para que me entendam sem terem a obrigação de entender, às vezes mesmo – quase sempre – não quero que me entendam, e a graça, para mim, está aí, falar o que os inaudíveis ou imperceptíveis não captam. Mas capta-me você. Essência atrás de essência fora da razão, loucura digna, perpétua, perpetua assim, depois do sol da meia-noite, atrás dos fios, dos pensamentos, dos amantes, de qualquer coisa que não baste ou que por ventura acabe.

   Já sou seguinte a mim, e corro atrás de mim mesma para não desgrudar. Isto há de enlouquecer a você? A mim não, porque habituei-me a essa sensatez de ter de me seguir e ir indo além sem a consciência exata de estar indo e ter a sensação de mesmo estando à frente, estar atrás também. Capta essa loucura inexata que transpareço opaca; porque de tudo minha inexatidão é o que chama. Chama; lembrei-me de Lux novamente, chama de fogaréu, fogueira de dia de São João, velas, candelabro, Igreja. Minha chama é eterna e não apaga nunca e é por isso que te chamo pro mundo da selvageria e doçura do tudo-além, pois não enxergo aqui, é escuro, tateio. Clamo enquanto estou em contato obscuro imediato com essa coisa, chamo-te para cá, gerânios e grama alta, erva daninha às vezes, e qualquer coisa de eletricidade e a mucosa cerebral de encontro a tua e a minha: eis o mundo, que é a coisa descolada dos mundos, que não é bem mundo, é só segredo de câmara de ossos, coisa de dormir e estou aqui, eu espero.

Continua...

sábado, 9 de agosto de 2008

Fluxu

   Decorro no tempo, – este –, que não estarei. Controvérsia nua minha meada, deste desnudo que lhe escrevo sem enxergar ao certo onde é que vou parar, corro sem sair do lugar, sempre estar no mal estar e sou crua. Comi anos luz de qualquer poeira de luar para não sair daqui, não sair do lugar e estar, ficar, estou no ponto “x” e vou continuar, começo assim, vou respirar: o choro estridente, o grito envolto e enlouquecido de uma tempestade tempestuosa mesmo que eu não escolhi, não pude querer, escolheram-me, escolheste, escolhemo-nos.

Disse não estarei, pois estou sem estar, estou sempre em desencontro, me desentendendo, mas estou. Dedos, fibras, suco, saliva. Percorrendo milimetricamente cada tecla, cada vasto pedaço do enluarar que chega sem licença para estacionar no meu lugar. Sempre vai continuar, a eternidade do tilintar de todas as coisas, dos ossos estilhaçados, sumo que percorre cada eco do meu silêncio vazio e a perturbação de Lux. Coisa brilhante, sem definição na minha língua viva e estrangeira. Sou de tantos segredos, mas ainda assim nomeio a perturbação com nome próprio e dignamente diagnosticável; traduzível e, no entanto, por outrens, preterível.

Continua...