quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Fluxu

   Silêncio: prédios desabam em mim. Enquanto por fora tudo é tácito e paixão. Flamejante bandeira da sensação por detrás de tudo aquilo que sinto, secretamente, atrás, bem atrás do que posso sentir: pressinto. Canso-me de tudo, dos ossos e orifícios, sou anil enquanto olho para baixo e choro num piscar de sanidade; meu limiar de distinguir as coisas minhas das coisas tuas. A igualização foi algo que aprendi e tomei, secretamente para mim, sem saber que tomava, e tomei, tomei sem saber que engolia como comprimidos, oito ao dia e mais esses, que não sei quantos são e quantos se somam a mim. Se somam. Ódio da benevolência: estou consciente do que digo e inconsciente do tudo que sinto, mal estar das inexatidões quase que por si só exatas e eu não sei mais.

   Disse-lhe que sentia, e eu sinto. Choro destrambelho, porque sinto demais e não explico e é por que não consigo. Fiz sinal de silêncio intuitivamente ao fim da frase, não deveria tê-la dito, ao fim, percebo que as coisas ficam suspensas, quase que imediatamente suspensas quando eu termino: plainam no ar, feito poeira quando uma fresta de sol bate na escuridão parcial e dá-se as mínimas partículas, que seriam imperceptíveis, - se não fosse o sol – e assim são as minhas estreitas e toscas palavras... todas suspensas, plainando, ofuscadas mas às vezes brilhantes... até que se chocam no chão, de uma vez e não se têm mais notícias, não se apercebe e nem se pode tocar com os dedos, cristal de mar, secreto de mim e por vós.

   Acometer-se seria tudo isso que choco aqui diante de mim mesma? Cenas do meu final-começo. Nasço entre as palavras e me choco entre as grandes crostas no mar; sou livre para morrer, quero. Quero querer e quero frasear a minha morte-vida entre as palavras e o meu grande choque de tudo nas entrelinhas do mundo: respiro, bate, pulsa, pula, germina, oco, vazio, nada... estrelas, constelações, meu osso do calcanhar roído e qualquer dia vou além, do ponto, da margem, da igualdade e pulo. Olho para o lado e só agora, juro, percebo ser noite, e é noite, e sou de verdade: estômago dolorido, cigarro preso entre os dedos, infância, olhos, pernas e meias. Tenho a sombra e a mulher, tenho o mundo e pés e, no entanto não consigo andar porque quero ficar aqui, espero o tempo passar e espero você ficar, porque escrevo na minha loucura, soprando cinzas e esperando o tempo parar de girar... começo no fundo de tudo do que digo a me perder se não prestar muita atenção na palavra anterior, mas não quero prestar, porque só escrevo para me libertar, para te libertar de mim mesma, dou um sopro novamente, uma gargalhada de antemão, pois sei, sei o que virá e prefiro gargalhar antes. E mais no fundo ainda começo a duvidar da perspicácia da invenção: será que foste inventada?

   Vejo reflexo e sorri. Olho para mim e pergunto-me também: acabou? E é só isso e fim? E eu queria que fosse mesmo assim e sempre assim: eis o fim! Mas não é, sigo o que há em mim e não se cala, emana algo que esvai e é eterno, eu ainda não sei se gosto de coisas eternas, mas sei que isso não se cala nunca, como os dedos que trabalham para sempre seguindo ordem de não sei bem o que, se um pensamento, se um atrás, se uma simples ordem do cérebro ou sabe-se-lá-o-quê. Obedeço a ordens e essas são minhas. Secretamente minhas e segredadas. Às vezes sôo fictícia demais, mas não sou. Tudo é verdade, mas não posso provar porque meu pensamento é ilógico e eu sou toda ao avesso. Entenda-me ao captar-me no instante que se segue: aço estica e estremece a cabeça sã, porém, ligada à loucura de maneira imediata. O homem fecha os olhos enquanto a mulher sorri. Estou espiando, com centenas de volatilidades de pensamentos algumas dúzias de hóstias na mão; espírito nu e corpo trêmulo. Engulo todas, em sonho. Porque na realidade eu não poderia comungar, é pecado, mas comungo por ser pecado, na tentativa de que um padre me reconheça na fila como pecadora e me excomungue, mas bem sei que isso nunca acontecerá: continuo me redimindo aos olhos de Deus. O homem abre os olhos e a mulher para de sorrir, tocam-se pitorescamente, quase sem se tocar e se afastam: sentem-se tão iguais que não precisam de muito, escolheram-se e se são. Mútuos e magníficos em sua grandeza de que existem um para o outro e nada os tira de tudo isso: amém. E eu flutuo na extremidade da pele dos dois, sem que percebam e sem os tocar, sou-lhes porque os criei e me são, enquanto tudo pode esperar.

(Eterno não tem princípio nem fim, isto me basta! Parece suficientemente bom para eu ter a certeza de gostar, gosto. Tenho dúvidas quanto às coisas, e palavras, e pessoas que me cercam, mas por via das dúvidas e dívidas, se elas forem eternas, sem princípios e fins, tornam-se adoravelmente desconhecidas e deliciosas de se ter.)

Continua...

domingo, 10 de agosto de 2008

Fluxu

   Tocam A bola com as mãos, ouço o estrondo alto de leve nos ouvidos. Calor; suponho, na minha infância, enquanto morria ao fundo, tristeza amena de menina e a mulher que chegava ou partia. Mormaço calado, suor na testa e nas testas que às vezes se tocam, tocavam-se. Davam-se as mãos e de mãos dadas às vezes íamos até as esquinas altas e altos íamos até não sei onde, éramos. Percorríamos longos caminhos e chegávamos num ponto onde nada mais nos atingia. Estávamos calados, cansados, entrelaçados, escolhemo-nos, mutuamente, simultaneamente: existimos. E agora olho de longe, pela janela, o céu: rastro de fumaça que qualquer teco-teco deixou ou esquadrão da fumaça, riscos lindos no anil e fotografo. Balançar levíssimo de folhas nas árvores, só sei qual é uma: mangueira. Rajadas intermináveis de coisa branca que sei que é fumaça, mas bem poderia ser nuvem em forma e força excêntrica e amém: coisa divina! Bem dizer, a vida é magnífica, e tenho sede de tudo. Alcanço com as mãos porque não sou tudo e o algo a mais alcanço com os olhos e sendo tudo impermeabilizo na retina e guardo atrás: é tudo.

   Escrevo com dicas secretas para não esquecer. E dou sempre coisas secretas para não esquecer. Essa é a base do meu fundamento; e no entanto mal sei qual é este fundamento que me incumbiram e não sei quem. Escrevo no destrambelho e falo ameno para que me entendam sem terem a obrigação de entender, às vezes mesmo – quase sempre – não quero que me entendam, e a graça, para mim, está aí, falar o que os inaudíveis ou imperceptíveis não captam. Mas capta-me você. Essência atrás de essência fora da razão, loucura digna, perpétua, perpetua assim, depois do sol da meia-noite, atrás dos fios, dos pensamentos, dos amantes, de qualquer coisa que não baste ou que por ventura acabe.

   Já sou seguinte a mim, e corro atrás de mim mesma para não desgrudar. Isto há de enlouquecer a você? A mim não, porque habituei-me a essa sensatez de ter de me seguir e ir indo além sem a consciência exata de estar indo e ter a sensação de mesmo estando à frente, estar atrás também. Capta essa loucura inexata que transpareço opaca; porque de tudo minha inexatidão é o que chama. Chama; lembrei-me de Lux novamente, chama de fogaréu, fogueira de dia de São João, velas, candelabro, Igreja. Minha chama é eterna e não apaga nunca e é por isso que te chamo pro mundo da selvageria e doçura do tudo-além, pois não enxergo aqui, é escuro, tateio. Clamo enquanto estou em contato obscuro imediato com essa coisa, chamo-te para cá, gerânios e grama alta, erva daninha às vezes, e qualquer coisa de eletricidade e a mucosa cerebral de encontro a tua e a minha: eis o mundo, que é a coisa descolada dos mundos, que não é bem mundo, é só segredo de câmara de ossos, coisa de dormir e estou aqui, eu espero.

Continua...

sábado, 9 de agosto de 2008

Fluxu

   Decorro no tempo, – este –, que não estarei. Controvérsia nua minha meada, deste desnudo que lhe escrevo sem enxergar ao certo onde é que vou parar, corro sem sair do lugar, sempre estar no mal estar e sou crua. Comi anos luz de qualquer poeira de luar para não sair daqui, não sair do lugar e estar, ficar, estou no ponto “x” e vou continuar, começo assim, vou respirar: o choro estridente, o grito envolto e enlouquecido de uma tempestade tempestuosa mesmo que eu não escolhi, não pude querer, escolheram-me, escolheste, escolhemo-nos.

Disse não estarei, pois estou sem estar, estou sempre em desencontro, me desentendendo, mas estou. Dedos, fibras, suco, saliva. Percorrendo milimetricamente cada tecla, cada vasto pedaço do enluarar que chega sem licença para estacionar no meu lugar. Sempre vai continuar, a eternidade do tilintar de todas as coisas, dos ossos estilhaçados, sumo que percorre cada eco do meu silêncio vazio e a perturbação de Lux. Coisa brilhante, sem definição na minha língua viva e estrangeira. Sou de tantos segredos, mas ainda assim nomeio a perturbação com nome próprio e dignamente diagnosticável; traduzível e, no entanto, por outrens, preterível.

Continua...

terça-feira, 29 de julho de 2008

Palavras suspensas no ar

   Meu bando ajoelhado em frente à privada, olhando teu vômito: rezo. Ilumino lava fluorescente e ave Maria: adoro! Bando de mim, corpo dividido em história: pele depois tinta, depois músculos depois toda a parte corroída pela devastação fulminante e violentada das noites e dias que me matam em piscar de olhos. Ossos, vazio oco, nada, depois o tudo, estômago dolorido, coração pulsante, e é tudo o que penso; sei que tem mais e é o resto. Ilumino-te nesse instante de veemência incontrolável: amo-te e sabe-se-lá por quê: amém.

   De todas as igualdades, risos frouxos, insanidades e amores incontroláveis que passeiam pelas nossas bocas que nunca se encontraram tudo o que mais amo é a certeza do sonho pequeno e a incerteza do que existirá. Olho no fixo ponto e não acredito ir até além do ponto de enxergar teu próprio vômito. Coisa sã que me sobe da barriga para a boca e depois para os olhos e depois pára e desce; volto ao coração e este eu não controlo: bate, respiro, bate, enjaulo afã e respiro. Sou o animal que se enjaula por dentro e sozinho; cadeado sem chave e códigos. Violência de uma eletricidade inexplicável e explode tudo; fujo arredia e corro; falo aos ventos, aos mundos; porque de tudo sou quase tudo.

   Inextricável a essência dos que transmutam sem se olhar. Passo pelas pernas, pelos braços, pelas línguas e mundos dos que vão abaixo; enquanto eu acima, olhando o meu mundo todo caótico e sem nome. Passa você pelos corpos nus e torpor de outrens que por vezes não sei quem são. Encontro-me no voraz e solitudinoso peito deles; porque descanso e não me troco. Não há trocas. Só troco aqui; onde já comecei rasgando todas as páginas de todos os meus livros escritos na pele: venerei em silêncio todos esses momentos em que se tornaram noites, dias, meses e depois, - após a coragem divindade - silenciosamente vomitei defronte algo secreto que não toco e não vejo. E logo após, - ironia -, não sei se confundo vômitos: já não sei o que é meu ou o que é teu.

   Levanto-me. Lavo a boca. Lavo novamente na tentativa de tirar todo o gosto ruim; de despejar junto à água todas as palavras que giram e batem junto ao coração: se perguntares se elas saem ou se sairão, com convicção eu responderei: não. É inextricável, é magnético, é inexplicável, boca, língua, compaixão e não passa, não mata e é só, por vezes, explosão. Olho o espelho, sem olhar o rosto, sem olhar o turbilhão petrifica que é a minha cara, que é a minha boca com tudo e ainda assim suave, suave, suave. Suavíssima sensação de correr e não sair do lugar, nunca, nunca mais.

sábado, 26 de julho de 2008

Esperança do ode (Esperança do canto)

   Escrevo cheia de crimes a cometer, porém estou lúcida: até quando, - será - que me corresponderás? À lucidez, eu pergunto. Fagulhas, álcool, cigarros e não acendo o fósforo; há o medo de que a casa pegue fogo, de que o corpo se corroa, de que a alma em chamas se perca inteira e nua. Engulo o azedume do meu peito de um jeito extravagante e vá ele, direto para o estômago corroído, amaldiçoado pelos infortunos de toda uma vida.

   Olho as coisas sobrepostas do meu jeito volátil e condescendente. Não estou a par quando não quero estar do que sombreia meu mundo, inebria a colores as voltas dos outros e o meu beijo, todo meu, que é só meu. Céu da boca maremoto, felicidade do frio e da mente sã, corpo trêmulo e um pouco de vermicida nas ranhuras: para além da loucura!

   Quero estar livre para quando o outro chegar; libre, livro, libro, Paris, Barcelona, língua no meu teto perambula todo veemente e só, não lhe digo mais. Estou a silenciar-me no deleito em que confundo a realidade com a realidade doutrens. Quando tudo me giram palavras de outro mundo, línguas dobradas e dobradas pra se falar verdades apaziguadas e eu rio, com cara devassa-amena: agora inquieto-me na frente do espelho gosto rosa ou vermelho na boca, engulo o riso, pode ser agouro.

   Agouro é verdade, coisa que estonteia a mente que parou de pensar; não quer girar nesse sentido em que alguns de nós giramos. Ainda quero estar aqui, na verdade libre, para quando eu partir em pedaços fulminantes; quando nós não existirmos e contágios acabarem. Perguntas partirão, respostas serão nem subterfúgios, nem navios, nem gatunos enluarados. Um mar todo de pétalas: o teu enterro em que eu não estarei. (O TEU ENTERRO EM QUE EU NÃO ESTAREI)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Atrás de algo a mais

   Como a vida e depois vomito: o homem carrasco e a mulher insensível. Encaro todos, os vícios, seus vícios com misericórdia e pedido, agora. Dubitabilidade a minha; estar sendo invisível. Sou fantasma encarnado num coração que bate incansavelmente, mas que um dia cessará. Infortuno o meu paradoxo sozinho que já não é mais solidão.

   Nicho a condição bela e subordinada em que encontro a paz; empilhado de azulejos, recanto perfeito e o pingar frenesi das gotas d’água. Estou “solamente-nua” colada no meu coração-fantasma que bate e baterá nos instantes que virão, vieram: me engolirão!

   − Engoli as tais palavras, a tal solidão: mando sinais de fumaça, meu fio cerebral de encontro ao teu, ligado ao crânio, morto, talvez. Bombas, mísseis, fósseis, coisas jurássicas, sou de tudo pré-história e não meço esforços ou medidas.

   Ganhei uma certa fraqueza ao ligar-me à sua existência que de tudo só me chama; igualizei toda a minha resistência para compreender que não posso cair e que só tenho de levantar quando me deito porque quero me deitar. Fui rejuntando todos os sonhos pequeninos, com cola instantânea. Reagrupando noções e engolindo junto às pílulas e comprimidos a única coisa que nunca quis aprender: esperar.

   Esperar, que mal há? Infindável a minha condição. Vou estar sempre a esperar. E tudo isso, tudo isso, tudo, aprendi com você, que vou esperar até o meu coração cessar e logo após recomeçar, até minha latente solidão reaparecer e o meu olhar se perder. E quiçá “Um sopro de vida” voltar! Sempre adversa, sempre dúbia, perplexa, paradoxal: sentindo sem sentir e vivendo sem acreditar mesmo viver, porque a constância-máxima da minha vida é a pessoa-eu-defronte-e-atónita.

   Quanto à vida, essa: meu coração bate normalmente agora, talvez umas 70 vezes por minuto, não lhe vejo. Respiro por mim mesma, sem tubos e sem sopros pela minha boca, apesar de eu achar sopros de vida um jeito gostoso de se despertar do letárgico sono. Acordo todos os dias e me levanto, com preguiça, mas sem medidas. Sorrio e espero porque de tanto engolir, tudo isso, eu, − sinceramente − aprendi.

domingo, 20 de julho de 2008

Coração de Furacão

   Fora banho mar. Vômito contido logo pela manhã; passos miúdos suspensos no ar; nunca saio do lugar. Esses poros abertos que me olham debaixo e que espio de cima, nunca saio do lugar; vômito contido hoje às 09:27: será amor, Doutor? Meu coração, dessa vez; por via das dúvidas, dívidas e amarguras, preso dentro do corpo, doutro corpo, tórax: câmara feita de ossos e coisa de repouso... bate... respiro!

   Revolta ao amanhecer, coração atordoado, pulsante entrelaçar, era não o amor, não o amar: sonho todo bêbado, trocado de pernas entre as pernas minhas e alheias, gargalhadas e sorrisos e como são bonitas as flores de Pequim! E mais um desses repugnantes que deveria cuspir: sentimento, direto ao chão, e veemente, ávido, queria ir logo à parede, ao infinito se pudesse: guardei, guardo ainda, com gosto ruim na boca, com água para segurar, empurrar, e biscoitinhos do café da manhã para que seja doce e triunfal a minha entrada no entardecer.

         E a tarde fora enlouquecedoramente atordoada: "stars grinding, crumb by crumb... " e coração fisgado agora ponta cabeça eu escrevo:

   Morra-se e eu termino de matar-me. Morram-se (menos uma) e eu consigo viver-me até o último gole, a última tragada, o último tudo do mundo; fiel lágrima, desesperança amena hoje-já, inquietude solitária na cadeira, agora mesmo no chuveiro, logo mais na cama fria de molas. O entardecer já passou, a noite chegou. A festa acabou: todos os risos, todas as lágrimas, a fúria, o choro, a espera. Bater de unhas no plástico da cadeira e a meia dúzia de palavras trocadas: o desconhecido.

   Correr na sensação enquanto tudo acontece bem diante dos meus olhos correndo perplexamente: perder-me sem perder completamente de tudo a consciência exata e levadamente apalpar meus olhos inchados e cansados; glória ao despertar da maturidade órfã de qualquer coisa... solit.....ousei. Solidão! É sobre solidão que tenho de dizer. Solidão o que sinto; antes era solitude a minha estada na cadeira, na poltrona macia da sala de estar, nas idas e vindas da cama até os livros ou o diário, lamentação, computador, máquina de escrever.

   Solidão agora, implacável, como osso mastigado, osso de fibra sintética, coisa de pet shop, cortando os pulsos com o vento, roendo os tornozelos de tantos passos rápidos e certeiros contra o chão concreto e que sempre me odiou; ando só, quando não esperava, − secretamente só −, por que finjo ser invisível, por que passo pelas ruas escuras e pelas sombras das árvores, por dentro dos prantos e por dentro de toda a chuva que vier... sobre o que digo? Constelações despedaçadas, migalhas e A mulher.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Espanca

   Reflexo único da ascensão contra a demência. Levantai-me com um soco na boca do estômago dolorido e ácido corrosivo; sou lúcida assim como as estrelas, assim como os brilhantes, assim como as angustias infâmias. Passos, contra-passos e desprezos que lançam, me lançam e lanço; dias crus e frios de golpes, dias nus e cruéis onde se dizem tudo.

   Calo na misericórdia da cama com a lágrima que escorre: com as obscenidades no fluir-entorpercente de tudo o que me gira pelo lóbulo direito e esquerdo, anti e não horário. Giro os dedos nos fios de cabelo: amém, eu não rezo. - Amém, eu peço. Escutai, não, não imploro, renego aos falantes, digo ao mundo o que me percorre na síntese de um instante, na controvérsia da minha parábola-destrambelha-loucamente!

   - Sou quem tu és! Consigo captar as vontades implícitas no que não podes sentir e sinto, vorazmente, loucamente, intensamente: sinto, pois não sente. E que lastimável, e degradante vitoria a minha... e não há desprezo, não há remorso e nem soco no estômago, só há vida, e vivo.

   Capto a energia, de toda a vida; coisa elétrica, coisa passional, coisa mundana. Não sou Espanca, não sou “P” no meu coração, nem meretriz, nem Anaïs tampouco Clarice, mas ainda assim continuo com a frase da Cecília antes de dormir; relampejo miragens, fotografias, remorsos das pessoas secretas, corações tumulados debaixo de sete milhões de chaves e sangue algum...

      - Quem é? (Sempre pergunto, mesmo sabendo que não terei resposta, mesmo sabendo que a encarnação é algo além do possível e não acredito) – quem é? Quem é que bate à minha porta e não entra? Quem é que me estonteia e vai embora deixando rastros de perfume e idéias? Quem é a criação e o divino calcário da minha mente desolada amaldiçoadamente figurativa? És tu, bendita, tão amada, esperada, és TU que me és?

   E eu ainda assim, espero. No anoitecer, no enluarar, encobrir, amanhecer, enlouquecer das minhas cabeças, dos meus corações e escarros; dos meus vômitos, estômagos, ossos, veias, vastos e estragos. Nesse todo e contínuo embriagar de não saber além de quem, além nem de mim, além “dos dois”, aqueles dois. Osso gira. Manivela, maquiavélica sensação na sala de estar e o tempo barulho, tilintar penoso e apesar do porém e do pólen e do mel: - estou a esperar.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Solitário num bater de asas

   Boa safra e envolta de vapores minha cabeça entardece, chego de boca quase muda; ouvidos estonteados, nevoeiro enluarado e céu todo de mar: lúcida! Luxúria no pensamento debaixo de litros d’água e luzes que piscam sem parar um instante sequer.

   Ainda estou na mesma posição de sempre, frente à janela, observando a fotografia, agora, já, prestes a se soltar da parede por conta própria: O pássaro. Analisando as ranhuras e rachaduras que se estendem ao longo das paredes e se encontram sem que eu perceba e sem o meu consentimento; e mesmo ao meu sinal tudo desaparece, passo levemente a mão em cima do interruptor de luz; - eis a escuridão.

   Exprimo a vida de maneira voraz e rápida; perspicaz. Num segundo meu coração pára de bater e no outro ele já bate enjaulado na garganta e sou uma criança que não controla seus atos: vejo meu reflexo no espelho e observo a garganta pulsante, sou semi-deus, sou quase tudo e dou um passo além do mundo. Ávida, generosa nas palavras, violenta nos gestos e secreta nos sentimentos: coração trancafiado. Todas as minhas tempestades junto às paixões, o sincero ruído que os dedos fazem e o perturbo-vacilo que a mente proporciona nos momentos de rapidez e subordinação ao sentido, amargo.

   Descolai-me do início, onde ainda não pensei em pensar a voar e não bati as asas; olho para o teto enfumaçado e lá está: ele por si só, descolando-se da “pátria-mãe-gentil”... nauseai a minha, porquê preciso do gosto da vida e que seja ao menos agridoce.

   Estendo assim, pouco nos pensamentos disformes da solidão, curtas divagações das lembranças cristalinas, porém gelatinosas do início de um pranto que estende ao longo dos séculos e antigüidades marcadas no corpo e nas bordas dos copos em que bebo: boa safra. Ensurdeço no banho quente, as centenas de gotas d’água caindo ao mesmo tempo sobre a minha cabeça como a tempestade de um fim que perdura. Perdurará?!

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Acutu

   Desrespeito latente; tudo o que vagueia indolente sobre o copo, lábio, dentes amargos. Subtraindo, colecionando, friccionando sensações seletas da mente desgastada e amaldiçoada que pulsa como num amanhecer frio e esbranquiçado no norte.

   Des-norte em que encontram-se todos eles; pensamentos amenos da casa vazia, do tudo escuro e esquecido lá fora quando todos se vão. Recolho os gatos abandonados do parque, pequeninos nós nos fios de cabelo, danças secretas e tímidas entre os passos rápidos ao som de coisas antigas como trilha-sonora; vou caminho a fora, caminho adentro, segredo e entremeio.

   Todavia e por dentro, sempre por dentro rasgo alguma coisa e arranco e então cuspo, logo pela manhã; às vezes não dá tempo de correr até ao banheiro, o cuspe vai direto ao chão... ou dependendo da voracidade, porque sempre pode ser um novo coração, direto à parede e explode: como hoje, agora. E sempre e então, e cheio de “e” vou seguindo até onde der, até onde doer e suportar e tiver esmaltes para retirar ou unha para roer.

   − Esperança, esperançosa, sagrada-lágrima! Quero um aguilhão!

   Voltemos às casas, aos silêncios agudos, ao adeus, à boca, aos corpos e copos cheios, à embriaguez; sou lúcida a maior parte do tempo, falando sobre embriaguez, agindo embriagada, falando e cuspindo, berrando e agindo, amando e... amando... e às vezes sonho com silêncios-solitudinosos-agudos, porém, apaziguados. Sonho com o adeus e a volta e os copos cheios, mas os corpos em cima e o torpor, ah! O torpor... agindo lentamente em meus laços, viscosos e sanguíneos como remetentes de felicidadezinhas amenas e luzes... faz mal, ter um estímulo, - que gosto de nomear aguilhão?

   Misteriosamente faço perguntas sem respostas, desconexas da realidade; casa vazia de madrugada, casa cheia de manhã enquanto durmo. Casa vazia à tarde, casa cheia de noite. Volto na fricção dos pensamentos, no fluxo da consciência que é a constância, não entro nos detalhes: detalhes.

   Gritos, sussurros, vento: despenteia os cabelos. E o frio que entra pelos pontos minúsculos do meu pijama de lã. Suporto porque há resistência e tudo isto ganhei ao deixar de desejar.