sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sonho

       Minuto após minuto e a vida só é sólida e eu? Inamovível. Compõem o triunfal olhar, – sou viajante e tenho muito prazer em borbulhar todo o meu desgaste na cama de ninguém, e despertar com o sol me irritando, me sacudindo e tudo porque não, eu não sei a que horas ele chegará – todos, estes bem aqui, que eu nunca esperei que viessem, que eu, justamente eu... nunca quis que partissem. Meu corpo todo está ereto e nesse segundo (e certamente nos próximos que virão, até a minha morte) não faço nenhum movimento brusco, como se eu tateasse o ar com uma suavidade divina. Meus olhos, pois bem, esses jazem num mar de todos os sais do mundo e são contraídos, porque dói... e eu acompanho o toc-toc dos sapatos, o movimento das saias e vou ao vácuo do corredor e tudo em mim dói (contração).

       Meus dentes, boca, meu rosto, tudo em mim brilha e vou até a sala sorrindo, não rindo, não sinto nenhuma felicidade pungente... no entanto, sinto que meu coração seria capaz de saltar do meu próprio peito, de tanta força. Borbulhas novamente, o champagne e todos sorriem ou riem alto, me interesso pela selvageria das pessoas. A selvageria contida enquanto as luzes estão acesas, enquanto o ar é agridoce e os meus olhos as acompanham, chamo a Didi e digo para que continuem servindo champagne, cada vez mais, e agora whisky para os rapazes, e o mais depressa possível, ela corre. Todos devem se divertir, todos, e até eu mesma, em espasmos e contrações, em dúvidas e anseios.

       E de novo, o toc-toc perturbante, que eu conheço muito bem, que me faz estremecer, que me faria parar toda a festa. Mas não, converso, viro minha bebida num só gole, dou um nó numa mecha do meu cabelo e ela se aproxima, olha para mim e percebo que chorava. E ela percebe que eu me divertia, supõe que eu me divertia. Puxa-me pelo braço, pela minha própria casa, como se todo o caminho até meu quarto de hospedes fosse secreto, como se tudo aquilo, as paredes, os móveis e as pessoas fossem componentes dum jardim que só a nós pertencesse! E na pior das hipóteses, eu receberia uma bofetada por sorrir demais, por beber e fumar demais, por ser humana demais... já me aconteceu antes. E na melhor das hipóteses, ela não diz nada, diz que está tudo resolvido, que se resolveram: claro, eu não tive culpa alguma! Fiz uma festa para comemorar isto, hospedes em casa, céus!... penso, enquanto estou encostada na parede, ao lado da porta, por que sim, ela pediu pra que eu esperasse.

       Espero, passa um amigo, tomo da mão dele o copo cheio e dou em troca o meu vazio, sento no chão, espero. E por fim a porta se abre, olho curiosa, nada mais me surpreende e isso é incrível. Não me levanto, não me movo, respiro, trago, continuo olhando, desvio o olhar. Dentro me encho de rancor, de ódio e me pergunto sobre qualquer capacidade, sobre a capacidade, penso na morte, na minha morte e em como ela seria rápida e poderia ser naquele dia mesmo, num minuto seguinte aquele, tudo porque naquela altura eu sentia toda a miséria que sou mascarada por alguns sorrisos e... continuava, contraindo meus olhos, revirando tudo o que era meu por dentro e eu doía tanto, e não poderia gritar.

       Os passos vieram, sem toc-toc, descalços, confusos bem diante dos meus olhos. Mas eu só olhava o outro corpo, estirado na cama, sem fazer um ruído, sem provocar um transtorno: está tudo bem, vai ficar tudo bem – eu pensava... e aceitava ternamente, como deveria ser. E ela sentou-se ao meu lado, pegou minha bebida e tomou tudo, pegou meu cigarro e não devolveu enquanto um silêncio opaco circulava entre nós, enquanto eu só queria entrar no quarto e deitar na cama e dizer que tudo bem, que eu iria embora da minha própria casa, que por mim o sentido de tudo aquilo era o anti-sentido e que eu a amava muito mais do que qualquer amor ou vontade ou desejo gritante e mordia os lábios e tomava coragem e a coragem crescia e eu me decidia, e eu entraria no quarto e falaria aquilo e faria isso mesmo, coragem, coragem, coragem e tentei pegar meu cigarro de volta: o último trago e coragem!

       Mas um único movimento foi capaz de desmoronar tudo o que a minha coragem poderia produzir e pela primeira vez na vida fui beijada sem que eu quisesse o beijo, sem que eu esperasse, sem que eu jogasse cartas, sem que eu soubesse que no fim iria dar certo por sabe-se lá qual motivo e pela primeira vez chorei e não soube o motivo também. E como um sopro, um vento doce e dócil no meu ouvido ela me disse que ficaria, que não se permitiria, que não agüentaria... e eu ouvi tudo, ouvi amando, como quem sempre amou e mesmo que eu quisesse fazer algo: nada poderia, estava enfeitiçada. (minutos, minutos em silêncio)

       Ela levantou, foi ao quarto e eu me afixei na cama, me asfixiei na cama, num gás em que nós morreríamos. Juntas e fui até lá, me deitei e disse tudo o que eu tinha pensado antes, tudo o que eu teria feito e uma voz generosa diz que me não tem graça mais, que existe outra pessoa, e que nosso amor é do tipo maior que o mundo (alívio). Deito-me, abraço, cansaço e o mundo vêm vindo todo de uma vez me atropelar, alguns amigos entram no quarto, se amontoam em cima da cama, me sinto somada!

       Todos apertados, falando alto, mudando e mudando de lugar, e ela chega até mim. As vozes vão se distanciando, meu ideal de amor está feito, pois as nossas mãos estão dadas, e as nossas palavras vão se completando por dentro da escuridão e as pálpebras não se fecham e os desejos são muitos, mútuos e deliciosos... mas o silêncio é avassalador, e tudo se cala, se encaixa, o sono aparece, como uma surpresa desagradável e nossos corpos vão perdendo as forças, os olhos vão se fechando e a última palavra que me lembro ter ouvido antes de adormecer foi: nuvem...

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Veludo

       A mão se lançando sutilmente no escuro entre o queixo dele e o meu. Branca, macia, macia, e a outra mão quente, encostando na minha; tecendo uma atmosfera tênue de malicia e ferocidade. Não fomos necessariamente negativos, nem as mãos seriam. Uma pálida, macia, de dedos longuíssimos e, a outra um pouco morena de sol, vezes de pianista, outras de estudante, mas sempre fugaz. Escorre feito sangue, porque há essa hora, já me tornei quente-quente, até as maçãs do rosto em movimento, como se fossem só os músculos a serem vistos. Tateio com os dedos, com a ponta dos meus dedos, com cada pedacinho das minhas unhas e reajo ao estremecer do conhecimento de cada desejo minúsculo.

       Abro os olhos, ou ele abre, abrimos. Olhamo-nos embriagados, estou com as vistas tortas, já não enxergo tão bem quanto a quatro horas atrás. Fico em mim, no lugar que eu deveria estar: girando em torno de mim mesma e ele chega. E como se eu já o conhecesse, percebo que ele se aproximará como um tufão e, os lábios se encostam, os narizes, os cabelos... e talvez tudo o que há de invisível se encoste também. Respiro. Uma de suas mãos preenche a lacuna que possivelmente meus cabelos sentem, pois o corte é novo.

       Sorrio, e por um instante abro os olhos e adoro a frivolidade das pessoas que consigo engolir no meio da escuridão. Docilmente bagunço todo o cabelo dele, beijo-lhe os olhos, mordisco sua bochecha, sua orelha e sei que respiro no pescoço de um quase desconhecido... e seguindo meus rastros ele me beija o pescoço e eu, – como a mulher mais cansada do mundo, que sempre fui – recosto a cabeça na poltrona e acendo um cigarro... penso nesses momentos que a vida é de uma beleza excêntrica e os encontros marcados de esbarrões e obscuridades.

       Levantamos, vamos ao bar, bebericamos nosso champagne e nossas línguas se encontram sem medidas. As mãos saem dos cabelos, dos pescoços, dos rostos e descem até ao tórax, até onde o coração pode bater tanto e de tanto bater, parar. E os beijos se transformam em não somente beijos são agora beijos-desejo. E alguma coisa arde mutuamente... e continuaria ardendo se não sentasse ao lado um conhecido e se do outro lado alguém não o chamasse: e tudo se acabou?

       Fecho os olhos, abro, fecho. Ouço a música, memorizo tudo, a bebida na minha boca, a fumaça ao meu redor, os desconhecidos, todas as dezenas de rostos desconhecidos e alguns conhecidos... envolvo-me sem me envolver; no ar, abafado, razoável... envolvente. De tudo, sei que vejo quase nada, encosto na parede, acendo um cigarro. Bebo cerveja. Danço, sorrio. E as pessoas parecem conformadas, convenientes a si mesmas, olho como a morte e quero levar alguém pro outro lado de tudo, saio da parede.

       E não faço questão, ele vem, e se perde, não procuro, acho aquela interessante. E o outro reaparece... faço uma teia entre as pessoas e não gasto muito tempo, entrelaço-me no meio e talvez eu me leve também. E sem o menor esforço ele diz que a música está estranha, me oferece uma bebida, pergunta o meu nome e o papo não tem fim... resolvemos sentar num canto qualquer.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Diluída

       Espasmos de meretriz na cama de U, sou eu mesma quem diz enquanto um nervosismo torrencial embola – quase – todas minhas cordas vocais. Balbuciando gozos matinais enquanto a cama ainda é quente, tudo é desfeito e corretamente torto... e sempre, para sempre na cama dos U’s desajeitados e amante (quase, tão só) e perfeito!

       Agora-já tenho a língua quente, amarga e presa no céu da boca: tudo me restringe ao lugar mais alto e confuso de mim mesma. Ahh! essa inexatidão de exatamente-desejo. E só poesia em cima de poesia, sem cheiro, sem rastros, sem qualquer tato e gosto; sem poder me dar em forma de soneto... e então sei, sei bem que por isso e tudo a mais vivo insone e o mundo das coisas me afunda no tic-tac profundo da adestração. Quieto. Quieto.

       Trago direto para dentro de mim a pequenez rápida da paralisia dos instantes. Você? E tudo o que pulsa é desvantagem, urros de desvantagem nas vezes que fecho os meus olhos e tento ser ninguém. E a língua ainda aqui, e a escuridão em mim, e é desse modo que percebo adorar o jeito envolvente das palavras no escuro, adorar os exauridos, os hálitos quentes do mundo:

       Altas, nós, solúveis... imensamente diluídas enquanto batem corações e, novamente, somos nós. E talvez, pela sensação, eu goste de andar sem tatear no escuro: me dá um medo, e o coração bate na garganta, e... procuro além de mim, respiro-te inteira no momento exato! Afogo num desespero e é – só – por que não consigo mais subir e nem posso mais voltar.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Poesia

       Há isto. E só aqui, eis o silêncio das palavras que não se pronunciam, dessa coisa toda que não sai do coração. Pousam gotículas mansas centímetros abaixo da gola da blusa, - líquido este, que, saiu dos olhos trêmulos, enervados de um sentimento reconstruído e remoído por dor... ou por amor. Removente ar, aquele que jaz no tempo em que a batida era somente uma batida de coração e a liberdade era simplesmente                                                                              v-o-a-r.

       Sentimento carnudo contornando os mundos, driblando mães de bocas infames e crianças de estômagos famintos: dizeres sob vozes, entonações e fumaças saídas da boca. Fantasmas dos hedonistas que éramos ontem e do instante sagaz que engoliu todo o chão em que podíamos pisar e agora, agora? Tudo Nosso é desenho no                                               c-é-u.

       E a grande boca nos olhando de cima, enquanto fecho os olhos bem aqui, debaixo e não quero nunca mais... misturo na mansidão do teu colo e no desprezo das tuas mãos, estas, que ainda me afagam os cabelos. Talvez seja o pileque: champagne, tequila, vodka, mas o meu mundo gira, e o de fora também, e, apesar de você, toda aqui, um lugar só pra mim, afago quente, hálito bom, coração aberto, eu continuo me sentindo                                                                                                                                                                               t-ã-o s-ó.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O Ponto

       Enquadro-me no espaço em branco, emoldurado na parede porque no quarto já não tenho lugar. Noutras horas sou o ardor das plantas dos pés marcando o chão, deixando rastros por todo o quadrado, vazio, noturno e de ar quente, imundo. Arranham as cordas aqueles – poucos – que precisam falar desse jeito unilateral e estridente e tão faminto. Passo ao passo que digo coisas sem sentidos, vou indo e somando anseios, moendo horas, tendo tempos para ser tempo e estar em cima do espelho, e ser o ponto: nesse instante eu me sufoco!

       Ando atrás do pensamento, percorrendo o vento de ontem, o som do instante passado, da mortidão do anteontem, o meu além é uma penetração decadente e orgásmica. Mil dessas coisas fulminantes permeiam o que do chão sobe ao teto em fricção, em movimento exaustivo que aos meus olhos são preguiçosos, tênues... tão crus de qualquer memória e esperança e nem eu mesma reajo diante do inesperado; ouço qualquer coisa que há muito me impermeabilizou em êxtase.

       Penso que Nossos desejos devem ser reagentes de Nós mesmos: nem nossos passos, nem mesmo nossos pulos, essa languidão, a batida de coração e o sorriso malevolente, o grito esquecido no canto do quarto, os cigarros em cima da mesa, a chave debaixo do travesseiro, a janela toda aberta... esses olhares que nunca dizem algo, e as mãos que se movimentam rapidamente na tentativa dum sussurro trambique criativo, de tocar as pontas dos dedos de um arranha-céu, de contradizer qualquer infortuno de ontem ou esconder a escuridão em flashes, fósforos ou guimbas de cigarro no cinzeiro

       – Os desejos são mais fortes, mais fugazes e mais volupiosos que Nós mesmos. Num momento não se quer nada, não se pensa em absolutamente nada, gelatinoso e estagnado, somando-se a qualquer coisa, adquirindo textura e tonalidade e noutro momento, após o desejo avassalador vindo à sua mente sem qualquer consciência, querer ou concentração; está tudo acabado, prestes a ruína certa, teu corpo tornou-se o próprio desejo, a própria fugacidade, volúpia, força: és agora volátil.

       E lançou-se aos mundos da imaginação disforme. Irrealidade, e não sente mais o nó que embatucava sua garganta em outros mil nós. E depois do tudo, pressente o estardalhaço da tentação, és O Ponto.

 

 

       . és o início de qualquer tentação. És.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Sobre as sensações

       Depois do mundo, é o secreto que respira por nós e somos nós que, também, caminhamos com um olho fechado e o outro de qualquer jeito. E depois, um pouco depois ou não: caindo, lamentando, amando, gritando porque chorar não adianta mais, ir indo e rindo percebemos que a vida segue num rumo sem prumo. Numa coisa sem linearidade e na ousadia sublime do instante, que pulsa, retroage, bate no coração da própria vida e do nosso próprio pulso. E assim, vai: amargo, tranqüilo, amando odiar-se e odiando-se amando, invocando o mundo, provocando tempestades, impedindo ou fazendo tufões e maremotos. E quando pára, adormece no encanto e no quarto em silêncio seja por, talvez, ter sido tomado por aquela diferença básica entre os seres: não sabe e não sabe que não sabe, sabe e sabe que sabe. Este e em resumo de toda a grandeza é motivo de silêncio e ausência, sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância[1].

       Acorde! Com a sensação de ser um soberano, um rei, um príncipe, um semideus e, a verdade é que... não dormiu tanto assim e tudo o que fora sonho já se perdeu, esfumaçou na medida exata em que, intuitivamente, seus olhos foram abertos. Porém, à parte, tens agora a consciência de tudo aquilo, de horas atrás, de ontem. E, por isso, captou a essência da manipulação, consegue usar máscaras. Consegue escrever não sobre seu signo lunar, mas sobre seu signo ascendente, sobre o que realmente sente. E se, por acaso, começar a pintar; suas pessoas, paisagens, corpos, seriam inteiramente disformes, pois depois de toda a descoberta da ignorância defronte você e a humanidade, tudo o que enxerga é assim: disforme. Mas não, olhando-o na rua, andando para pegar o ônibus, você é completamente normal, não é um novo personagem de Freaks, muito menos uma das pinturas do Schiele, mas é que a arte é uma mentira que revela a verdade[2] e é por isto que escreveria sendo transparente, mas, falaria, ainda assim gaguejando porque é tímido demais e usaria ainda as suas poucas palavras de sempre.

       E mesmo assim, com todas as descobertas, redescobertas, caminhos a seguir, passos não dados e quilômetros rodados, centenas e centenas de máscaras trocadas. Depois das inúmeras sensações que sentiu de ser tudo, desde semideus a reles. E além, todas as vezes que fora além do ponto, sempre além do ponto e as sensações que viraram personagens e as personagens que viraram exatamente você. Um dia um Maquiavel contra si mesmo. Mas sempre, em todas as investidas de ser não sendo exatamente, sempre fora seu próprio amante. Thecov já dizia que o homem é o que ele acredita ser, e foi nisso que acreditou no tempo magnífico de todas as personagens que vivera e, que mais tarde foram literalmente mortas, assassinadas, arruinadas, suicidas, fatalistas. Mas que ainda assim, não deixando de ter carne, ossos e vasto estrago viveram com um coração na mão, esquivando-se do que vier e ouvindo o sopro da vida. Por isso talvez digam que a arte imita a vida, ou talvez nossos “bichos” depois de criados tenham autonomia própria, uma espécie de vida, e fique em baixo quem tiver coragem de domar e os quiser novamente; pois há neles a vontade de respirar, de expansão e contração, de um certo amor liberto do mundo e das verdades tão ditas: nunca limitam-se.


[1] Citação de Sócrates.

[2] Citação de Picasso.

sábado, 8 de novembro de 2008

Nudez

       Sou úmida. Sempre de olhos líquidos e, agora, bem em cima do asfalto quente, ensopado, borbulhante e imundo de mim já não lembro o gosto que tive ontem. Engulo espaçadamente gotas de chuva ácida e fria, gotas quentes e salgadas e, entre o milímetro disso e aquilo existe a vastidão: paira tênue um secreto bem-estar subindo pelas pontas dos meus dedos, enraizando no meu cérebro... tudo, tudo o que arranhava antes, e que agora só é meu futuro imediato. Nesses tempos a vida soa excêntrica e imediatista, sempre soube de tudo isto e falando agora, sei bem que lhe parece muito pouco.

       Quero mais que o mundo todo respirar, expandir, fluir junto à enxurrada ali do lado, ser-água e quase me torno a própria água. Sem movimentar muito e não estragar o tempo paralisado no próprio tempo, os olhos que olham nos olhos e a vida que bate na própria vida. Um coração enjaulado na mão, − tudo suave, tudo cinzento, os passos em volta, a lentidão aberta das estacas d’água, o hermetismo dos carros... e o mundo agora nu, preso na minha retina que já fotografou números enquadrados, paredes verdes, vozes que penetravam, perfumes que nos encostavam e palavras que se acrescentavam...

       Agora é um oco, vasto-nada correndo em silêncio porque não se pode gritar. E não se pode mais agir, fecha os olhos, entrega-se como mais um corpo, a mais, e de mais a mais, sempre fora isso, no meio da multidão e sendo só. Pedaços de mim vão subindo, outros descendo, se misturando ao asfalto, à água suja, todo meu amor é minha lama e ainda tento me levantar, mover os braços e gritar... engulo amargo.

       − É breve, lástima, verme! Tudo passa, dá-me tua mão, entras no perigoso e labiríntico caos de mim: me puxa pra fora, me estilhaça contra a parede de vidro e me remonta. Ando meio zonza, atravesso meio mundo. Dou um trago, mais um, mais um, mais um e me acabo porque eu precisava reviver. E volto, refazendo o caminho anterior, recolhendo tudo o que era meu e dessa vez, quem anda nua sou eu.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Duas: quase três

       Pálpebras enormes e lágrimas ardentes velam um sono que eu não veria nem de olhos arregalados. Além da minha planície gelada, com os pés descalços vou repetindo algumas dúzias de palavras bobas e é só por que depois do meu fim, ainda lhe faço dormir.

       Metade de mim é você e a tua metade que não é sua mais me é. E nos tempos mais dóceis, nos segredos mais inexatos dos ventos, agarro essa verdade aveludada com a ponta dos dedos e respiro o que for de cheiro... e sei bem que me perco nas idas e vindas do gosto que completa o meu, na realidade que é minha fuga. De toda nossa percepção em comunhão. Nós.

       Línguas desdobradas, palavras impermeáveis e coisas sempre desarmadas. Vou me desmanchando aqui e depois reabrindo de novo; tudo o que eu já deveria ter lhe dito. E tosquiando meu pensamento e os dedos: fecho os olhos e espanto! Enxergo displicentemente o mundo de Psiquê e o amor. Reconheço o sonho e todas as palavras que completam e completam e giram em torno das minhas.

       Venta frio, sombrio e forte. Mas não, não chove mais. Gosto de toda essa força e talvez essa insuficiência toda tenha se dado porque é primavera e minhas páginas estão querendo saltar pelo quarto: tudo o que faltar, o vento levou. Hoje a insuficiência de palavras quem causa é o vento, não que o fluxo não tenha sido grande o bastante, - é que vou com o fluxo, como se, contudo, eu fosse remetente e destinatário, mensagem e código... e o vento, toda a força é você.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Cena erótica – sobre divãs

       Sento. Levanto: morro de véspera. Agudo! Inusitado permeia as idas e vindas do dedilhar nas teclas disso ou daquilo que conduzo com pouca destreza. Mordisco o lábio inferior. Um suspiro! Puxo um cigarro do maço nem cheio nem vazio, acendo rápido e trêmula. Trago forte, direto aos pulmões: a todo vapor, a todo vapor, vapor, vapor?!... já não sei.

       É vasto, contudo, continuo minha cantiga, toda a minha esperança que conduzo num pacto comigo mesma. Levanto, sento, estremeço inteira, já sou um gatuno de olhos cintilantes observando as erupções de um intelecto-vazio e de uma mente quase que completamente sã. Confesso tudo, pois estou na hora do desenrolar, desenrolar-me de cobertores, fios recobertos por camadas e camadas de espécie de algo superior a ouro e santidade além de qualquer santo: minha antítese da nudez e o divã.

       Conto sete passos, falo sobre todas as coisas, e ao certo não sei sobre o que digo. Era manhã, e eu sentava, levantava, fumava, mordia o lábio, roia a unha do dedo mindinho, escrevia, mordia a caneta que usava para rabiscar os erros que eu mesma produzia enquanto redigia pensamentos desconexos de mim ao laptop anos 20. E agora é à tarde e estou aqui; com a folha amassada entre as mãos, deitada contidamente, olhando a sala limpa, arejada, repleta de muitos livros e poucas estantes: livros que servem de bancos, bancos que servem de livros e vice-versa. E uma parede em especial me prende a atenção, não se usam mais papel de parede, mas aqui tem e é beige, com ornamentos sutis em verde claro, um verde que se mistura com o beige, sem deixar de ser verde claro, embora eu não saiba identificar bem, ou explicar exatamente o tom de verde, talvez um musgo bem, bem clarinho e suave. Nessa sala tudo é suave...

       Livros muito antigos. E os passos Dele são lentos e sua voz é mansa, tão mansa que quase me conduz a um sono leve. O chão é branquíssimo, e tem uma enorme janela, que se faz passar por parede, com uma cortina de voil indiano branco, que eu poderia descrever como insignificante se não fosse tão bonita! Fecho os olhos, sempre fecho os olhos porque, bem, tenho de me concentrar nas minhas palavras, tenho de não olhar para os olhos azuis por detrás das lentes dos óculos Dele e tenho de também não prestar atenção na sua boca silabando as palavras que eu quero ou não ouvir. Ele me indaga sobre porque não correspondo pessoas que não compartilham os mesmos sentimentos que os meus; isto de modo geral, sentimentos como um todo. E eu não consigo explicar, esquivo-me de tudo, sempre, do mundo, esquivo-me de grande parte dos acontecimentos, mas continuo vivendo, e desta vez, comigo ao divã, vermelho-sangue, e ele sentado à poltrona, vermelho-sangue também. Olhamo-nos friamente, neste instante que esquivo-me da indagação que não foi necessariamente uma pergunta.

       Ele é um sujeito pacato, sensato e inteligente. Acha que sou uma artista, uma escritora; duas vezes por semana se põe a ler calmamente e criticamente tudo o que produzo, embora, eu, timidamente não goste de lhe mostrar minhas produções. Ando adversa, ando sem andar, compenetrada no meu eu e analisando os demais; grande parte disto devo a ele, nesta convivência sem defasagens e com uma margem de erros mínima. Levanto-me, olho os livros calmamente até chegar à janela e lá fora parece tudo tão calmo e é por que não ouço ruídos, barulhos, buzinas. Volto ao divã. E no exato momento em que me sento, lembro-me de uma conversa intensa, porém breve:

              Ella: Quando você vier, aonde prefere?

              Sabina: Prefere o quê?

              Ella: Fazer sexo comigo!

              Sabina: Tenho tantas opções assim? Sua cama é de casal?

              Ella: Gosto de fazer sexo na banheira... minha cama é de solteiro.

              Sabina: Nunca transei na banheira, mas parece interessante!

              Ella: Já sei pra onde te levo. Você vai comigo ao Divã; vai ser sempre no Divã!!!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Segredos para Lottie

       Se o tempo parasse, para então eu juntar todas essas coisas perdidas nos pântanos, a vida seria melhor, Lottie. Tronco luxurioso. E os meus olhos se enchem de lágrimas, e as minhas lágrimas se enchem de alguma coisa secreta, que vem do delta no seu paradoxo venusiano e inatingível; tornei-me incansável nas investidas de olhares avessos e retóricos. Pois sou eu quem se cala sempre e quem se despede sem um aceno, vou indo de leve, de mansinho, deslizando no infinito, como se a mim fosse tudo confidenciado: o prelúdio do fim.

       Tiraram-me as mãos dos antebraços, tiraram-me os braços dos ombros e as pernas para que não eu possa chegar até a ti. Tenho olhos culminantes e até o mais distante e grave deslize consigo gravar na retina, fotografar por detrás dos cofres encharcados de sal e água quente. Vim do mar porque não tive outra escolha, e por isso meus olhos são cristalinos, moles e líquidos.

       Coro as bochechas, a face nua inteira. Vejo-lhe sem saber exatamente o que és. Sigo a estradinha que me leva até o caminho do encantamento, até o portão aberto e depois a casa toda sem móveis e as janelas abertas, redemoinho de poeira e cabelos louros subindo, subindo, dançando no meio da sala de jantar. E aqui sou o som de tudo em volta, sou os passos, e sou a mobília e sou os convidados e sou a própria comida. Faço-lhe o favor de me calar.

       Ando percebendo – sem andar – aqui mesmo, bem como o mundo é... petit Lottie, a vida traga-me num desajeito tão grande, num desgosto imenso e eu, enquanto só eu; quero remendar tudo, sair costurando as nuvens, os grandes buracos acinzentados que percebo quando olho para o céu nesses dias de setembro. Embora toda a chuva e ventania e toda a eletricidade pairando no ar me cause um êxtase e felicidade enorme, sinto vontade de sair remendando tudo, deixando as coisas como deveriam ser, ou todas brancas, como se o céu fosse todo de algodão ou todo azul, profundo e tácito.

       Mas não, eu não seria capaz, sei que há a volatilidade. E também sei que as coisas giram, e por tudo isto, desisto. Mas não morro. Continuo, e não disse quase nada, fico atrás do pensamento. Falo no destrambelho a mim mesma, porque contudo há o que sobra, palavras perdidas nas entranhas, grudadas na mucosa, na relva, nas plantas selváticas perdidas por entre os dedos de Lottie, que me espera, adormecida na cama enquanto penso que ela me ouve.

       Falo e falo sobre o dia, sobre a brisa da manhã, sobre a volta, o porvir e o amanhã. Mas, não, Lottie é só uma menina e já está dormindo há pelo menos uma hora num sono profundo, mas leve, leve... a mãozinha encostada no rosto, mechas louras perdidas por todo o travesseiro e o corpo todo desprendido do resto, como se flutuasse no ar, mesmo em cima da cama, atrás de mim. E eu, uma egoísta, tenho vontade de acordá-la, sacudi-la e contar tudo sobre o mundo, sobre todo mundo e lhe dizer que, apesar de, há esperança e “apesar de, se deve amar”.